Os eleitos, em todos os domínios, muitas vezes tornam o anormal a coisa mais normal deste mundo. O poder absoluto cega absolutamente. Maquiavel foi cáustico, mas certeiro: «Um homem que se empenhe no bem morrerá no meio de tantos homens maus. Por isso, um príncipe, se quiser manter-se no poder, tem de aprender a não ser bom»! Uma tragédia…
O que se passa é que o mal tantas vezes vai sempre servido de bandeja como se fosse bom, em campanha permanente vai fazendo o seu caminho para que não se perceba o saque a que estamos votados. Mas, tudo isto é uma questão de barriga. No caldo de mistura de bens privados com bens públicos, a fome de vários pode ser uma fartura se algum dia a barriga arrotou tanto que deu para vários dias. O povo de Deus no deserto também pensava o mesmo, o que representa a liberdade e a dignidade neste deserto face às saudosas cebolas e as carnes com fartura no Egipto mesmo que obrigados a trabalhos forçados e à miséria? – Esta lógica pensante faz dos maiores carrascos exemplos de bondade, generosidade e de gestos extraordinários de altruísmo que devem ser relevados. Valho-nos que muitos só os recebem depois de mortos ou depois de abandonarem os cargos. Esquisito? - Nada disso, perfeitamente normal numa sociedade que vive mais preocupada com a barriga do que com a cabeça.
É inconcebível que se confunda o que é de todos açambarcando-o para alguns. Que seja entregue a alguns sortudos que fizeram pela vida estando no momento certo e no lugar certo ao lado das pessoas certas para singraram mesmo que sem esforço, sem dedicação ao bem comum e à justiça, mas sabiam muito bem bajular, pedir a bênção aos padrinhos e fazer pouco ou nada para que tudo fique sempre na mesma desde que «o pão nosso e o dos nossos» esteja assegurado.
Não podemos conter a indignação de quem faz do que é de todos património pessoal e faz dele uso com a falta de vergonha à conta dos nossos impostos. Estas mordomias que o poder confere são vergonhosas artimanhas que violam as leis e desrespeitam o povo, ainda mais em tempos de austeridade, em que estes mesmos eleitos apertaram o pescoço dos cidadãos com as subidas escandalosas de todos os impostos, os salários foram cortados até valores impensáveis, as taxas que pagamos pelos serviços do Estado são de bradar aos céus, a quantidade de gente lançada à sarjeta do desemprego roça o horrível e arrasta consequências imprevisíveis.
Face a isto, temos uma sociedade mergulhada na insegurança porque os assaltados são outra forma de espoliar os nossos bens e toma-nos à desgraça de ter que viver na desconfiança em relação aos outros, sem contar com o medo geral que toma conta das pessoas. Para ter alguma ideia disto, basta contactar com um dos imensos idosos que vivem sós.
O estado de alma de muita gente é de depressão, de tristeza e o desencanto é enorme até ao ponto de sabermos todos os dias de pessoas que vão pondo termo à sua vida porque chegaram ao fim da linha… E mesmo assim, os ditos eleitos continuam felizes e contentes sem pingo nenhum de vergonha a fazer dos cidadãos um mal necessário que se engana com uma festinha, que se espolia sub-repticiamente, quem se pode submeter a todos os géneros de joguetes e brincadeiras que de inocentes não têm nada...
Até quando vai perdurar esta vergonha descarada, este desplante ofensivo em relação a quem não tem «o pão nosso de cada dia» para colocar sobre a mesa para alimentar os seus filhos? - Esta tragédia rebenta com o nosso interior e rebentou com a Democracia o melhor sistema político até hoje foi experimentado, mas também pelo que se vê, o pior de todos. Nisto aludimos a George Orwell, para vermos o melhor de «O Triunfo dos Porcos». Provavelmente, o autor deste livro quando o escreveu, pensava nos regimes ditatoriais do proletariado, mas nunca imaginou que para o futuro neste regime dito de democracia viesse a assentar quem nem uma luva. É triste mas verdadeiro.
José Luís Rodrigues