Nelson Mandela comemorou na passada quinta-feira, internado no Hospital de Pretória, onde permanece há cerca de mês e meio, o 95º aniversário do seu nascimento. Em estado que a fazer fé em informações que têm chegado ao conhecimento da comunicação social assinala uma evolução positiva relativamente á situação que apresentava aquando do último internamento, motivado por uma infecção pulmonar aguda. Nestes tempos de crise – sobretudo de crise de valores – Mandela, pelo seu exemplo de vida, constitui um paradigma inapagável como provavelmente não existirá outro na dobra do século vinte para o século vinte e um. Porque foi capaz de sublimar alguns dos sentimentos mais primários que aprisionam a alma humana, como o ódio. Mandela é um negro que sempre viveu numa comunidade dominada por brancos. Muito em consequência de o ser embora não apenas por sê-lo, esteve preso durante vinte e sete anos num estabelecimento que se tornou agora um ponto de referência na história da luta pelos direitos humanos. Foi durante o seu longo cativeiro que contraíu a infecção pulmonar que o debilita e que tem sido causa dos seus vários internamentos. Mas foi também durante os tempos de chumbo em que se viu privado da liberdade que sublimou sentimentos como o ódio e a retaliação, que tomam conta de qualquer homem na sua situação, e que deu á África do Sul e ao mundo um exemplo de humanidade, de tolerância, e de grandeza moral verdadeiramente ímpar. Ao ponto de, crê-se que com rigor, poder dizer-se, que tanto quanto a memória dos vivos alcança, ao lado dele apenas ser possível destacar a figura de Mahatma Gandhi, também advogado tal como Mandela e que viveu uma parte da sua vida na África do Sul, como alguém relativamente a quem se torna possível encontrar pontos de contacto com o líder histórico da ANC. Se existem homens providenciais Mandela á seguramente um deles. Feito prisioneiro na sequência dos ódios que assolaram a África do Sul ainda em pleno “apartheid”, Havia de permanecer em Robben Island durante toda a fase mais dura do regime apenas sendo solto em 1990. O que foi a sua caminhada a partir daí é do domínio público. Tudo sem perder de vista que a África do Sul do começo dos anos noventa era um país dilacerado por muitas convulsões e por muitas feridas que necessitavam de sarar sem que isso se mostrasse tarefa fácil fosse para quem fosse que a chamasse a si. É que um processo como o apartheid deixa necessariamente marcas profundas, sendo que os últimos anos do regime Botha não consentiram exactamente apaziguamentos. É que situações como a que lá se viveu provocam feridas e geram ressentimentos que levam anos a sarar. E os ressentimentos não são bons conselheiros. Mandela com tudo isso teve de lidar tendo que recomendar serenidade e tolerância a uma legião de pessoas que se sentiam usadas, descriminadas, mas sobretudo injustiçadas. E isso é sempre o mais difícil. Na verdade, apenas alguém com a autoridade moral de Mandela, alguém que tinha passado por vinte e sete anos de sofrimento moral e físico diário, é capaz de compreender que á agressão não tem de responder-se necessariamente com a agressão, e que o perdão, num tal contexto, sendo o mais cristão é também o mais desarmante de todos os gestos. A diferença da atitude de Mandela está em que ele não perdoou por uma única vez. Ele foi capaz de perdoar sempre, fazendo dessa atitude de despojamento de sentimentos de révanche, de ódio e de vingança um espaço de nobreza, de tolerancia e de compreensão que ajudou a abater muitas barreiras. Acresce que o Mandela de hoje já não é o Mandela dessa época, ainda que então os anos e os efeitos da doença – da doença que ultimamente lhe tem vindo a minar as forças e a determinar longos períodos de internamento - já pesassem. Nada disso, contudo, obstou a que tivesse pacificado as hostes extremamente divididas entre interesses antagónicos e ódios ancestrais, e que de um certo modo sobre os escombros do apartheid tenha levantado uma nação, de que o episódio de Invictus, cuja saga o cinema narrou, foi uma bandeira apresentada ao mundo . A autoridade moral de Mandela no pós apartheid evitou que os ódios tivessem caminhado á solta e que a transição de poderes tivesse ocorrido sem excessiva turbulência. A África do Sul, contudo, país de enormes potencialidades, tem que estar preparada para o pós Mandela, circunstancia em que todos os demónios podem soltar-se. Agora com o risco de já não existir uma figura como o Presidente do ANC a quem tudo era consentido e com autoridade moral bastante para se sobrepor e mediar todos os conflitos. A grande questão está em que enquanto Mandela é vivo, por muito ausente que se mostre, a sua simples presença é suficiente para apaziguar todos os conflitos. Depois dele o jogo obedecerá necessariamente a outras regras que se não se vislumbram quais possam ser.

Carlos Sequeira