Milhares sobem amanhã à Herdade do Chão da Lagoa. Se a festa do PSD continua a ser o que era, são esperados três tipos de pessoas lá em cima: os genuínos social-democratas, os interessados e os interesseiros. De todos, os mais valiosos ainda são os primeiros. Entre os genuínos, estarão importantes dirigentes e até o militante ou simpatizante mais anónimo, aquele que não vê mais nada, nem quer ver. Aquele que aceita tudo como lhe dizem que é e vê no símbolo e nas cores do partido o mesmo que um ferrenho adepto vê no seu clube. São militantes destes que todos os partidos querem. Não questionam, não criticam, não perguntam, não incomodam. E dão palmas. Muitas palmas e pancadinhas nas costas. Apesar de entre muitos destes estarem alguns quase acéfalos, ainda estarão entre eles os mais honestos, os que defendem a camisola e lutam por quase nada. Em ano de eleições autárquicas, os interessados estarão em grande número. Candidatos, autarcas em fim de mandato, funcionários de topo, falsos independentes estarão em peso. Querem ser vistos em cargos de poder que alguns ainda não exercem. Apesar de certas colunas completamente torcidas, percebe-se a razão da sua presença. Os piores são mesmo os interesseiros. Não querem saber de nada daquilo, não querem sequer passar perto dos militantes mal trajados, do povo, dos que pedem e dão votos. Apenas querem ser vistos, como quem vai a um festival e usa uma t-shirt a dizer "eu fui". Ou como quem vai a Fátima e traz do santuário um postal a dizer "em Fátima orei por ti". Vale tudo para dizer que esteve lá, que aplaudiu. Em bicos dos pés, com chapéus ridículos, com empurrões, fazem tudo para dar nas vistas. Logo que acham que foram vistos por quem queriam, ala que se faz tarde. Esta categoria apresenta cada vez mais apoiantes. Neste e noutros partidos, os interesseiros afastam interessados e ganham aos genuínos. A tenda de Hélder Spínola marcou a semana. Num tempo em que alguns políticos procuram credibilizar a actividade política, Brazão de Castro, um reformado governante, deu uma rude machada nesse processo. Mostrou que ainda vale tudo, que os parolos aceitam tudo. A casa do Governo que utiliza para férias é como se fosse a herdade dos avós, uma herança que é só de alguns e nunca será daqueles que apenas podem fazer férias de tenda às costas. Se olharmos através do pano da tenda de Hélder Spínola, tanto a herdade que recebeu dinheiro de fundos europeus como a herança que o velho e matreiro PSD pretende passar aos mais novos têm de ser vistos com um filtro mais arejado. É certo que o acampamento na casa do Governo não é uma acção de verdadeira e sustentável política, não é uma proposta de lei, nem um debate sério, que seria sempre chumbado na Madeira. Mas prova que, às vezes, é preciso seguir pela vereda para mostrar o caminho. Neste percurso, que é sempre a descer, o melhor é olhar primeiro para a Herdade, imaginar como é desbaratada a herança... e não se deixar dormir na tenda.