Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã, se for, será outra madrugada e o que eu vir será outra visão.
Quantos somos?
Quantos nos enganamos?
Que mares soam em nós?
Quem sabe o que é ?
1999-2013
Preparar conscientemente o fim de um século e, principalmente, o do primeiro o do segundo milénio tendo como referência a chegada a um tem secularmente imaginado, imenso, novo, aberto, que o ano dois mil em resposta ao mais fundo subconsciente colectivo. A toda a largura do tempo, sucessivas gerações esta travessia. Imaginaram-na definitiva, escatológica e terminal. Vaticinaram, em milhares de textos, imagens e histórias, esta fronteira do tempo em tons apocalípticos.. Este momento alimentou a profecia, os mitos e sonhos colectivos.
Não é pequeno mérito poder, agora, participar deste tempo imaginado por homens inquietos a quem o desconforto da sua época e a criatividade fizeram errantes, poetas e utopistas. Desagradados dos relógios e desobedientes dos relógios dos cronológicos do seu quotidiano, viajaram, pelas idades e séculos em busca de um tempo futuro que nunca poderia ser o seu, em busca do confronto final e de uma desejada vitória de Deus, do bem e da sabedoria. Sonharam a luta final entre a escuridão e a luz. O milagre da ciência, o triunfo da justiça, a chegada a um paraíso reconquistado desta vez pelo saber humano reconquistado, pela técnica e beleza.
Hoje, nós os que efectuamos a travessia desse tempo mítico, verificamos, infelizmente, que afinal, os dias se sucedem na maior parte dos casos com inútil e rotineira sequência. Massificados pelo círculo da alienação e do « Loucura da Normalidade », só alguns verificam ainda que simbolicamente nesta travessia, é retomarmos o centro de nós mesmos para nos religarmos aos mitos que os antigos entreteceram para suportarem o nosso imaginário.
Não deixaremos, por isso, que transformem a passagem do milénionuma descarada exibição de consumismo turístico e muito feérico.
Mas é nosso dever comemorá-lo como conscientes protagonistas de uma maravilhosa narrativa que nos reservou o epilogo à medida da nossa imaginação e responsabilidade. Entregá-la-emos ao próximo milénio como herdeiros de um tesouro.
Claro que o sol ao nascer no primeiro dia do novo milénio terá de ter um brilho diferente. Se não o notarmos, o desfeito será exclusivamente de um de nós.
Quem sabe que pensa sequer o que pensa ou o que deseja?
Quem sabe o que pensa ou deseja ?
Quem sabe o que é para si mesmo?
Que estamos fazendo?
O que apeendemos?
Que sol vimos?
Renata Camacho