
Confesso. Não tenho contas em ‘off-shores’, nunca fiz parte da administração de nenhum banco, não tenho, quiçá, estudos nem conhecimentos suficientes para integrar quadros de empresas públicas, nem nunca me inscrevi em nenhum partido em busca de um lugar ao sol, logo, como qualquer outro esfarrapado contribuinte madeirense, além de não ter casa de férias à disposição paga com dinheiro de todos nós, passo as últimas duas semanas do mês a contar os cêntimos.
E, seguramente, à semelhança de muitos outros milhares que vivem uma vida humilde, ou seja, à rasca, questiono: que mal fizeram os madeirenses para merecerem tanto aproveitamento discutível de dinheiros públicos? É certo que muito foi feito durante 30 anos, mas não foi para isso - governar e decidir - que as pessoas se apresentaram em eleições? Para serem, em última análise, funcionários do povo, e darem bom uso ao dinheiro dos contribuintes, ganho com sangue e suor?
Utopia, dirão. Sonhos de menino? Concedo. Temo que sejam, ainda, recalcamentos de infância. Lembro-me que me fascinava a banda desenhada. Encantava-me o mundo da ficção. Talvez, como dizia o humorista Seinfeld, esta seja parte da essência do pensamento masculino já desde criança: os homens pensam que são super-heróis, a um nível menor, no seu pequeno mundo. Porque quando estão a crescer e a ler as aventuras do Homem-Aranha, do Batman, do Super-Homem, para muitos isto não são meras fantasias, são opções. Esta é uma profunda e secreta verdade interior da mente masculina. Que depois, como se sabe, esbarra com a realidade.
É claro que, tal como um espelho que nos conta uma triste história com o passar do anos, a vida ensina, de forma crua, que uma das grandes características do ‘heroísmo’ é que, ironicamente, não depende do sucesso. Mitos heróicos como os que hoje se criaram, em torno de pessoas supostamente comuns que saíram supostamente do nada, que se tornaram importantes e mudaram supostamente a vida de milhares, escondem um rasto de miséria, povoado por uma amálgama humana de endividados, desempregados e pobres miseráveis, gerados, diariamente, por um sistema desigual alimentado por estes auto-proclamados ‘heróis’.
Talvez seja por isso que, ao longo dos anos, passei a ter um carinho especial para com quem procura, ao longo da vida, ter um percurso íntegro, viver com o fruto do seu suor, procurando ajudar os outros sem querer reconhecimento público, sem se aproveitar da posição para se ‘governar’, tentando ultrapassar os problemas do dia-a-dia apenas com aquela coisa que se chama, acho eu, honestidade. Estas sim, são pessoas valentes. Sem máscaras. Sem disfarces. Sem truques.