A natureza, na sua perfeição cíclica, é realmente fascinante. Mas tem fases mais interessantes que outras. Por exemplo, os candidatos ao poder, em véspera de eleições, sofrem hipermetamorfoses e, durante algumas semanas, ficam irreconhecíveis. Mas não sei se me divertem mais do que me enervam…Têm solução para todos os problemas que não resolveram até então, sentam-se nos banquinhos a fingir que ouvem os reformados, beijam histericamente as velhinhas no mercado, arranjam jardins, servem feijoadas, transpiram como nunca o fizeram na vida (nem voltarão a fazer, até as próximas eleições), e com isso irritam até a mais serena das almas… Ora, é natural que o povo não confie nesta classe política e se sinta impelido a votar em branco ou, ainda pior, a brindar o boletim de voto com um majestoso manguito, dispensando inscrições e demais comendas… Não raros são também os casos do voto múltiplo, mas a maior parte prefere, mesmo, é ir à praia. E é para estas pessoas que hoje escrevo. Não vou moralizar a questão. Queria só esclarecer que qualquer um deste tipo de voto (incluindo o “não voto”) é tratado da mesma forma. Votos em branco ou votos com desenhos são somados à abstenção e, ao contrário do que já ouvi dizer por aí, uma eventual maioria dos votos em branco ou dos votos nulos não invalida o sufrágio!!! E, se um voto faz a diferença, a falta dele também fará. Sabe porque é que o PSD-M tem ganho as últimas eleições? Não é porque a maioria dos madeirenses tem votado nesse partido. É porque desde 1976 a abstenção subiu dos 25% para os 42,6%, remetendo para metade da população o poder de determinar o destino da região. Logo, só um quarto dos eleitores precisou votar no Partido Social Democrata para que este partido atingisse a “maioria absoluta”. Agora, caro leitor, calcule bem o preço de um mergulho e de um manguito no boletim de voto…

Rubina Sequeira, Advogada