Foi (também) assim, ora olhando uma para a outra, ora prescindindo do contacto visual, entre outras configurações, que as saxofonistas do saxINduo se apresentaram no Auditório da FNAC, no sábado passado. Este duo, fruto de uma iniciativa recente de Ana Irene Rodrigues (que também integra o trio prometedor Allegro Giocoso) e Nubélia Fernandes, demonstra, mais uma vez, que os jovens músicos cuja educação começou na Região, não têm medo de voltar e lutar pela afirmação da contemporaneidade no meio de uma sociedade meio desinteressada. E será apenas desta maneira, com os nossos jovens, de regresso à Madeira, a afirmarem e validarem a largura dos seus horizontes, que teremos a hipótese de construir aqui a noção de uma cultura (musical, mas não só) homogénea, ininterrupta e evolutiva, em vez de nos atirarmos uns aos outros com etiquetas estereotipadas e divisivas. A coragem inerente de jovens, munidos com o saber e o querer, é, porventura, a arma mais potente capaz de atacar a inércia e contrariar a entropia, duas das pragas mais persistentes das quais a sociedade simultaneamente padece. E mesmo quando o som do fundo, da maquina a fazer a espuma de leite, integra-se com convicção nas sonoridades e efeitos rebuscados, produzidos por duas saxofonistas em pleno comando dos seus instrumentos, temos que ser felizes por existirem palcos alternativos e abertos, e temos de acreditar num futuro próximo em que o nosso público terá, por sua vez, a coragem intelectual de não virar as costas às variadíssimas manifestações da criatividade musical, mas sim saudá-las de caras.
Robert Andres, Musicólogo