Estranhas notas do dia político que acabou, que já foi ontem. Um Governo novo que toma posse a cheirar a velho e a ranço ou, citando o actual ministro dos Negócios Estrangeiros, a podridão. Tem razão o homem da Sociedade Lusa de Negócios, ou negociatas, para sermos mais exactos. É que cheira mal um executivo que esconde o seu passado mais constrangedor. É como ter um bife cujo prazo de validade está-se a aproximar, mas essa informação é sonegada pelo vendedor, gerando desconfiança no consumidor. Não cheira ainda a putrefacção, mas a dúvida está instalada e já ninguém quer. Não quer mas paga, que diz que a brincadeira BPN ainda pode custar mais 100 milhões ao Estado.

A propósito de custo para o Estado, que quer dizer coisas que pagamos todos, mais ao menos à mesma hora do momento de glória de Paulo Portas em Belém, sem Álvaro e sem pastéis, chegavam notícias da ilha dourada. O PND acampava na casa onde Jardim e os seus ‘muchachos’ gozam férias há anos à custa do contribuinte, num verdadeiro acto de despeito pelos ‘patas rapadas’ que o elegem. Não é novo, são anos de patifaria, de imoralidade destes ‘doutores da sem vergonhice’ , mas a verdade é que coração que não vê, coração que não sente. E ontem Helder Spínola pôs muitos corações em sobressalto e entranhas reviradas a lembrar aquilo que vamos fazendo por esquecer, ainda que tresande até a olfactos menos apurados. Não percebo, contudo, como é que não houve outros a seguirem o exemplo e a montarem arraiais no espaço que é como o outro de que já ninguém fala: É meu, é teu, é nosso. E a Lei de Finanças das Regiões Autónomas era aprovada em São Bento. O que se podia dizer sobre as incongruências partidárias nesta matéria não cabem neste escrito e não deixam quase ninguém incólume. Podia-se chamar a lei da cambalhota ou da pirueta. Das demissões quando dão jeito para dividendos eleitorais. E outras coisas mais...

E neste momento da análise de 12 horas desta estranha forma de vida que é a política, sobra o descrédito e descrença. Mas ontem também foi o dia em que o parlamento nacional se levantou para aplaudir Honório Novo, o comunista, dono do gato Gaspar, que se despediu de São Bento. E pode-se achar que isto é de somenos, mas não é. Foi-se embora do palco da política e da cidadania mais visível não só um bom homem como um homem bom (pelo menos é a minha convicção) e isso faz sempre falta. Mas mais ainda quando estamos perante esta coisa abstracta da causa pública. Recebeu elogios à direita e à esquerda, apesar da forma intransigente como defendeu até ao último minuto ao serviço dos que o elegeram aquilo em que acreditava, num exemplo de verticalidade, que merece pelo menos o reconhecimento nestas linhas. Porque pelo menos para mim bastou este episódio de raro consenso parlamentar para me lembrar que mesmo nos locais mais inóspitos, a natureza faz nascer belas flores. E isto é esperança, que, afinal é um combustível cada vez mais caro e raro, mas ainda vai sendo - como o sonho - o que melhor comanda a vida.