Juvenal Pereira - Anda, Maria, isto hoje vai ser uma alegria! - Eu também estou a pensar. A gente vai comer e beber até a “lancha encostar”. - Bendito e louvado seja, o que já vejo ali de cerveja! - Olha, olha, vinho tinto e “seco” (feito às três pancadas) mais bolo do caco e carne para espetada. Quem me falar em crise mando internar no “Trapiche”! - Isso é verdade. Lá comer e beber a gente tem á vontade! - E mais os bailaricos, os despiques e, cá para nós, marido, o “ Emanuel das sete saias” também deve ser divertido! Mas antes, Manuel, vamos fazer o nosso papel. Dar a impressão que estamos a ouvir o nosso presidente com atenção. - Oh, Maria, isso lá tem de ser… se a gente quiser, á vontade e de borla, comer e beber! - E parece que o Sr. Presidente já vai falar. O discurso vai começar: -“ Minhas senhoras e meus senhores, hoje estou comovido pois sempre pensei que nesta altura não estivesse vivo. Mas as vossas orações, a Deus os vossos pedidos, tal desenlace têm impedido. Sinto-me um homem com sorte. O meu povo não quer, não deseja, não pede a minha morte.” - É verdade, sim senhor. Pragas e excomungações andam por aí a zunir mas a morte não se ouve ninguém pedir! - Cala-te, Manuel´, vamos continuar a ouvir. - “ Minhas amigas e meus amigos, dizem por aí que o nosso partido está dividido. Nada de mais errado. Ele está separado. Os bons estão comigo e os maus foram …para o outro lado!” - Acertado! “ A oposição anda também numa aflição para chegar ao Poder, mas por aquilo que estou a ver só me querem imitar nas coisas más que há 40 anos ando a fazer.” - Bem dito, para ensinar as “ventas” dos partidos. É só despesismo, oportunismo, clientelismo, reformas mais ordenados, duplicação de “tachos”, tudo gira à volta do dinheiro e ainda não chegaram ao “poleiro”. - Isso é evidente, mas o povo começa a estar atento. Nas eleições quando aparecer uma carga de abstenção digam que eleitorado é inculto, não tem educação. Hoje, as pessoas sabem quem devem afastar do Poder, mas têm dúvidas quanto àqueles que devem eleger. -Marido, deixa andar assim, vamos ouvir o nosso presidente até ao fim. -“ Para concluir, uma coisa vos quero pedir:- Anda para aí um rapazinho que quer discursar, não os deixem falar. Digam-lhe que já me ouviram e ouviram muito bem, não precisam de ouvir mais ninguém. Aqui, na nossa próspera Região, mais de uma opinião é considerada a voz da reacção. Todos juntos, minha gente, não somos demais, para lutarmos para que o fascismo não volte, nunca, nunca mais!” - Ai, meu querido, quem me dera ir para Bruxelas contigo! - Cala-te, Maria, vamos tomar uma sangria em prol do partido e da nossa democracia!