Depois de 3 semanas recheadas de episódios caricatos - demissões com cartas públicas, tomadas de posse acompanhadas de demissões irrevogáveis, uma remodelação requentada precedida de negociações viciadas - a crise política foi resolvida. Finalmente o ministro mais remodelável de sempre cedeu lugar ao ministro da economia mais desejado dos últimos tempos.

Com este desfecho, os partidos da coligação, que viram o seu afastamento aproximar-se, saíram de forma airosa da crise, ainda que não incólumes. Mantiveram-se no governo, mas, agora, sem o apoio incondicional do Presidente da República e com vigilância redobrada. Seja lá isso o que fôr. Mas nem tudo lhes correu mal. A remodelação corrigiu o erro estrutural do Governo com o desmembramento dos mega-ministérios e a coesão do governo saiu reforçada. O CDS fica mais implicado nas questões mais sensíveis e a promoção de Paulo Portas será a verdadeira mordaça que o torna o Dupont de Passos Dupond. A coesão durará até à próxima crise que será ____________ (preencha com o evento a seu gosto).

Os partidos mais à esquerda – PCP e Bloco de Esquerda – continuaram a insistir na necessidade da dissolução da Assembleia da República e enredam-se na sua rigidez política. A sua credibilidade fica diminuída dado que recusaram encetar qualquer diálogo alargado ao mesmo tempo que procuram negociações com o PS. O PS, apesar de tudo ter feito para manter a coerência das suas posições e não se furtar ao apelo do Presidente da República, não ficou imune aos efeitos negativos da crise política. Seguro conseguiu passar entre as gotas da chuva – socráticos, históricos e demais barões – mas a sua liderança passou por uma séria prova. Mais do que nunca as eleições autárquicas serão um teste à sua permanência à frente dos socialistas. A vitória terá que ser bem expressiva, qualquer outro resultado não será aceitável.

O Presidente da República recuperou a jogada “só vim fazer a rodagem” agora com o novo nome de “Governo de Salvação Nacional”. Uma semana e 8 reuniões depois o resultado esperado aconteceu, o fracasso das negociações. Agora a Cavaco Silva não mais restava, porque já havia afastado quaisquer outras hipóteses, do que aceitar o que já havia tacitamente recusado, a remodelação governamental anteriormente proposta. Deixando clara a sua incapacidade política para impor a sua solução.

O país esteve em stand by 3 semanas, a situação política atingiu níveis de degradação e incerteza elevados, a bolsa perdeu milhões e os mercados penalizaram os juros da divida soberana de Portugal E a resposta dos políticos resumiu-se ao regresso à situação anterior e ao reafirmar das velhas políticas ainda que eivadas de novas promessas. A “montanha pariu um rato” mas a sociedade civil esperava um elefante. Passados quase 40 anos da fundação da 3ª República impõe-se uma verdadeira reflexão sobre o regime político português e o seu futuro. Há que adequá-lo às novas realidades e à expectativas dos portugueses num tempo de tantas incertezas. Para já precisa-se de verdadeiros líderes que saibam encontrar soluções e nos empolgar para os seguir. Precisamos de projetos e não de remendos.

Como diz a sabedoria popular “Tudo como dantes no quartel de Abrantes.” Mas só que este se encontra cercado e as forças sitiantes são em número crescente.

João Paulo Beja