
A oração de penitência colectiva de Cavaco Silva ao país desta vez trouxe umas palmadinhas nos traseiros almofadados daqueles malandros que fazem da governação um recreio de poder. A tónica fazia lembrar as reprimendas de compaixão que se dão aos miúdos que se portam mal - “Vá, agora voltem lá para fora e continuem a brincar, mas com juizinho!” – quando lá fora o rebuliço é tanto que já não sobra quase nada de pé.
E assim decidiu o Presidente da República prorrogar a confiança política no governo, depois de uma semana de amuos, birras, prantos e omissões. Neste capítulo, o protagonista foi o Antoninho que não tem muito tempo aceitou fazer uma ‘vaquinha’ com o Pedrinho e com o Paulinho e comprar uma bola à ‘troika’, mas agora não quer saber de nada e coloca-se de fora. Diz que fica a ver o jogo, na esperança que não chegue ao fim ou que alguém se estatele de frente contra a parede.
Aguarda a oportunidade para entrar no pátio, declarar-se dono da bola e escolher os seus próprios jogadores. Com tantas baixas, indisciplina, lesões e outras confusões, não será difícil. Depois, será a sua vez de fazer rolar a bola cara mesmo que ninguém conheça a táctica, a estratégia ou a fórmula para vencer. António José Seguro recusou entrar num “negócio politiqueiro” como lhe chamou José Sócrates. Parece-me que o distanciamento do PS do “governo de salvação” não é mais do que um sintoma de partidarite que parece ter contagiado epidemicamente o país. O recreio parece, para o PS, o fim em si mesmo. É como a reformulação ministerial: Mudam-se as moscas mas o pântano é o mesmo.
A crise governativa em que Portugal está mergulhado não é só sintoma do défice financeiro. Há um défice de vontade política, de coragem e de determinação para fazer o que já deveria estar feito: reformar o Estado. Reduzir a despesa pública primeiro para dar o exemplo. Agora que esgotaram a margem para aumentar impostos, de repente toda a gente quer ser ministro da economia. E onde param os nutricionistas? Quem trata de impor um regime dietético à obesa máquina administrativa? Quem instala a banda gástrica ao bicho?
A avaliar pelos palpites e dissertações sobre o estado do país, a reposta seria Alberto João Jardim, não fosse ele o campeão nacional do despesismo e do esbanjamento. O presidente do governo regional está simplesmente em delírio face ao espectáculo mediático que se tornou a crise governamental na República. Todos os dias, Jardim tem opinião crítica formada para o que de mal se passa com a administração em Lisboa. A solução é sempre a mesma: revisão constitucional. Já sobre a sua governação sem administração nem autonomia, Jardim não sabe de absolutamente nada. Nem das amarras. Nem da bóia de salvação.