É inequívoco que o investimento de Portugal no setor da educação nas últimas décadas teve benéficas repercussões, tanto na valorização pessoal dos cidadãos, como no desenvolvimento social e económico do país. Também é totalmente legítimo afirmar que esse necessário investimento no conhecimento leva décadas para que se alcancem bons níveis de progresso. Interromper esse ciclo vai levar a um retrocesso nos níveis de escolarização e educação e, em consequência, a um possível recuo civilizacional. De qualquer modo esta crise económica veio pôr a nú um facto: o investimento no conhecimento não foi por si só suficiente para assegurar um desenvolvimento económico e social sustentável e sustentado. Não tínhamos de nos centrar apenas sobre o conhecimento mas sobretudo na intermediação desse conhecimento. Nas palavras de António Nóvoa, “a chave para o futuro é sermos capazes de juntar o território e o conhecimento. Isto é, sermos capazes de continuar o investimento no conhecimento como nas últimas décadas e simultaneamente utilizarmos este conhecimento para fertilizarmos o território o que significa voltar a práticas de investimento na terra, no mar, nos recursos de industrialização de produzir riqueza e valor.” Por isso defende que este Portugal futuro há de nascer da ligação e entre estas duas dimensões: conhecimento e território. O novo drama agora é o desemprego jovem e o qualificado. Ou seja, todo o investimento feito na educação das pessoas nos últimos 40 anos fica em mãos alheias, porque desperdiçamos o valor conhecimento incorporado nas pessoas, e não o aplicamos na fertilização do território e utilização dos nossos recursos. O desperdício desse bem compromete o futuro. Compromete mais ainda quando verificamos que a classe profissional responsável pela educação deste país, se debate com despedimentos em massa, cujos principais visados são jovens professores qualificados, que não vislumbram perspetivas de poder exercer a sua profissão num futuro próximo. Portugal tem futuro se formos capazes de conciliar o poder da cultura e do conhecimento, ao poder criador e não apenas criativo, em vivência no espaço público da educação que é espaço de liberdade de cidadania e que obriga a um compromisso e treino diários de todos. Falar da crise e analisá-la não a resolve por si só; requer que olhemos mais adiante, no exercício pleno da nossa liberdade e do comprometimento cívico já na perspetiva de a vencermos. Aos governantes cabe a tarefa de estimular e promover a ação criadora e transformadora dos cidadãos. Torga dizia que a sociedade portuguesa é uma “sociedade pacífica de revoltados” no sentido de que nos revoltamos mas depois não transformamos essa revolta em ação, num compromisso cívico de construir alternativas.
Sofia Canha