Diz respeito à fotografia. Como passámos de um tempo inaugural onde uma nova técnica, pela minúcia dos pormenores reproduzidos, causava verdadeiro espanto, para um tempo onde se dão cursos, ditos profissionais e na escola pública, de operador de fotografia? A mim, que ando nisto há 20 anos, parece-me que é cada vez mais a fotografia – das câmaras aos processos finais de produção das imagens – que opera sobre nós. Não seremos apenas simples utilizadores? Afinal, não é quase só isso que sempre nos pedem? A fotografia era uma ciência, e uma prática, só conhecida de alguns. Chegou depois a democratização, mas era agora a industria que ‘fazia o resto’ já que ‘você só tem que carregar no botão’. Portanto, como é que hoje achamos que somos nós os operadores da coisa? Vejamos alguns casos e só no que às câmaras diz respeito. Porque é que todas as digitais fazem ficheiros de imagem JointPhotographic Experts Group – uso o inglês porque a globalização, logo, os mercados, a isso obriga! (mas também podem ler apenas as iniciais) – e só poucas possibilitam imagens TaggedImageFormat File? E as suas objetivas/lentes... Ora de construção simples e apenas com 1 elemento ótico; ora bastante complexas e com vários grupos de elementos óticos; ora fabricadas com vidros de excelência e com tratamentos avançadíssimos que corrigem múltiplas aberrações de luz e cor; ora construídos com materiais óticos de baixa qualidade. Não se enganem, são a fotografia e câmara fotográfica que operam em nós. São elas que carregam os muitos programas que a ciência/indústria criou. A câmara fotográfica é um brinquedo (Flusser) que procuramos perceber e utilizar no melhor das nossas capacidades, mas sempre dentro, claro, das possibilidades que cada brinquedo traz consigo. Às vezes, é preciso fechar os olhos para continuar a VER.

Carlos Soares Cooperante da Cooperativa “Espaço às Artes – Cultura Ponto Zero”