Escrevo a duas horas de ouvir a comunicação do Presidente da República ao País. Estou a três de (não ver) mais uma final do Big Brother e de (não ver) um outro programa de entertenimento, Splash. Este é o fim de semana português, um domingo de julho em que a silly season ganhou contornos sofisticados porque inclui protagonistas que nos deveriam governar. Mas não querem. Não me interessa nada quem vai sair vencedor/a do Big. Estou-me nas tintas para quem dá o melhor mergulho para a piscina do Jamor mas quero saber que explicação irá dar ao povo o senhor de Belém. Com que cara. Nesta paródia, onde a classe política ganhou perigosamente rótulos de cabeça no ar e de irresponsabilidade, temos de ser exigentes. A brincadeira acabou. Se o povo não aguenta mais austeridade, também não aguenta mais acompanhar o prolongamento de um jogo de escondidas onde tudo são ondulações atrás das cortinas. Não bastava os últimos dois anos de cenas desgraçadas para assistirmos, agora, a mais um espetáculo deprimente. “Juro por minha hona desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, disse Cavaco Silva, por duas vezes, aquando da tomada de posse. Passos Coelho, primeiro ministro, e restantes, também juraram cumprir “fielmente as funções” para que foram designado. No dia 21 de Junho de 2011, (discurso de tomada de posse) Passos Coelho garantiu que iria dar o “exemplo de rigor e contenção” para que houvesse recursos para “os que mais necessitam”; e o [...] Governo será o líder desse exemplo”, apontando três tarefas prioritárias: estabilizar as finanças, socorrer os mais necessitados e fazer crescer a economia e o emprego, prometendo: “ninguém pode ser deixado para trás. Não queremos uma sociedade que abandona os seus pobres, que ignora as pessoas com deficiência, que não socorre os seus aflitos, que esquece os seus emigrantes, que rejeita os que procuram o nosso País para trabalhar e viver, que desampara os seus idosos, que se fecha aos seus desempregados”. Passaram-se dois anos. Como acreditar nas palavras? Neste momento, tenho a sensação que voltámos à estaca zero (ou talvez não) e, juro, não entendi a tentativa do Presidente da República cozer entre o PSD, CDS e PS uma espécie de união nacional. A crise começou no interior do governo, publicamente com a demissão do ministro das Finanças, Vitor Gaspar, numa carta de óbito à política por ele seguida. Seguiu-se por arrasto o pedido de saída de Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros. Ficou, Passos assim quis. Mas Cavaco Silva não quis e puxou dos galões de um sistema semi-presidencialista, melhor dizendo “um sistema bipolar” que não funciona, e chama o PS (que foi colocado à margem durante dois anos) para integrar uma espécie de “troika portuguesa”. O acordo de salvação nacional? Salvar o quê? O corte de 4,7 mil milhões de euros, sabendo-se que antemão que os socialistas nunca iriam aceitar essa medida? Estava dito. Olhando de fora (de dentro é impossível) tenho o direito de pensar que Cavaco Silva piorou a situação de Portugal com um único objetivo: viabilizar o atual governo, incluindo remodelação, mas ficando de fora do poço. Para a imagem, deixou de estar “colado” à coligação. Como a sua proposta foi rejeitada por António José Seguro, ele não poderá fazer mais nada do que dar o aval. Rejeitado que está o cenário de eleições antecipadas para este ano, Cavaco já explicou o porquê, fica-nos a sensação que um dia irá dizer: “eu bem avisei. Eu tinha uma solução para o país...mas rejeitaram-na”. Ou seja, desresponsabiliza-se desta baralhada. Veremos. Seja o que for dito e decidido (ontem) tudo isto é tão triste para ser verdade, mas é! O povo, pelo visto, continua calmo e sereno. Vai, mais uma vez, cruzar o xaile negro sobre o ombro, cantar o fado desgraçadinho e embebedar-se numa esquina...para tentar esquecer. Faz mal.
*jornalista do DN nacional, na Madeira
Lília Bernardes *