Quando Vítor Gaspar se demitiu, a coisa ficou feia – era o segundo homem de confiança de Passos a ir embora, depois de Relvas – mas acreditei que o Governo, mesmo aos tropeções, ainda se aguentava.
Quanto Paulo Portas tomou a decisão irrevogável de se demitir, fiquei com a certeza de havia eleições antecipadas a 29 de Setembro, no mesmo dia das autárquicas. Perdi a aposta, até ver.
Quando Passos Coelho fez a declaração política mais surreal de um primeiro-ministro, dizendo que não aceitava a demissão de Portas… levei algum tempo a perceber o que estava a acontecer, mas ainda apostava nas eleições. Continuei a perder a aposta, até ver.
Quando Paulo Portas tomou nova decisão irrevogável de se manter no Governo, deixei de tentar perceber, mas já apostava menos nas eleições. Menos ainda quando foram entregar um novo modelo de Governo ao Presidente da República.
Não estava – como quase todo o País, acredito – preparado para o que Cavaco Silva fez. Essa, reconheço, foi surpresa total. Quando indicava que ia aceitar o Governo… manda todos para trás e exige um consenso alargado. Confesso que me caiu o queixo. Voltei a apostar nas eleições.
Durante oito dias, os partidos estiveram reunidos, fingiram que debatiam ideias e no final o que muitos (eu incluído) esperavam: não há acordo nenhum, porque na política o que conta são as eleições e as percentagens dos partidos. As eleições começaram a pagar menos na bolsa de apostas.
Cavaco foi de passeio às Selvagens – por acaso acompanhei, mas não foi para saber como ia a minha aposta – e agora tem o menino nos braços. Não quis resolver o problema no início, aceitar o governo coxo do PSD e do CDS ou ir para eleições. Agora está, em bom Português, entalado. Não há cagarra, calca-mar bebé ou Rui Costa com as suas etapas da Volta à França que o ajudem. Vai ter mesmo de decidir. E desta vez, só mesmo os jogadores inveterados podem apostar. O comum mortal não arrisca.
Ir para eleições é, para ele, o pior mal que poderia acontecer a Portugal, por isso a opção fica comprometida. Resta aceitar o governo proposto pela coligação, talvez o mal menor, mas uma opção que roça o anedótico porque já a tinha amarrotado e deitado no lixo. Pode, ainda, loucura das loucuras, manter o actual Governo em funções – Portas saiu e entrou – e fingir que não aconteceu nada.
Seja qual for o plano B – acredito quem nem o plano A foi pensado – vamos ter um Governo sem qualquer crédito, sem a confiança do Presidente e muito menos dos portugueses. Vamos brincar à governação. Afinal o que temos feito já há alguns anos. Esta aposta parece ganha.
Jorge Freitas Sousa