É a sua história que se deve contar, mas ele não tem história, não esteve na história, não há a certeza, está na história dele, inimaginável, indizível, não importa, tem de se tentar encontrar a história dele nas minhas velhas histórias vindas não sei de onde, deve lá estar, deve ser a minha, antes de ser a dele, reconhecê-la-ei, acabarei por reconhecê-la, a história do silêncio que ele nunca deixou, que eu nunca deveria ter deixado, que talvez nunca mais volte a encontrar, que talvez volte a encontrar, e então existirá, existirei, haverá o lugar, e o silêncio, o fim, o começo, o recomeço, como dizer, são palavras, só tenho palavras, e ainda assim, começam a rarear, a voz altera-se, ainda bem, sei bem o que isso é, devo saber o que isso é, e haverá silêncio, à falta de palavras, cheio de murmúrios, gritos longínquos, o grito previsto, o grito de escuta, o grito da espera, a espera da voz, os gritos atenuam-se, como todos os gritos, ou seja calam-se, os murmúrios cessam, desistem, a voz recomeça, volta a tentar, não se deve esperar que deixe de haver voz, que só reste o núcleo do murmúrio, tem de se tentar depressa, com as palavras que restam, que me transportem para a minha história, para a minha velha história, que esqueci, longe daqui, através do ruído, através da porta, para o silêncio, deve ser isso, é tarde demais, talvez seja tarde demais, talvez já tenha acontecido, como poderei saber, nunca saberei, no silêncio não se sabe, talvez seja a porta, talvez eu esteja à porta, muito me admiraria, talvez seja eu, fui eu, fui eu num sítio qualquer, posso ir-me embora, durante todo este tempo andei a viajar, sem saber, sou eu que está à porta, já não é outro, mas o que é que uma porta tem a ver com isto tudo, são as últimas palavras, mesmo as últimas, ou são murmúrios, bem sei o que isso é, nem isso, fala-se de gritos distantes, enquanto se pode falar, fala-se disso antes, fala-se disso depois, são mentiras, haverá silêncio, mas que não dura, em que se ouve, e se espera que ele se rompa, que a voz o rompa, talvez seja a única, não sei, tudo o que sei não vale nada, tudo o que sei é que não sou eu, não é o meu silêncio, é o único que tive, não é verdade, devo ter sido a outra, aquela que dura, mas não durou, não compreendo, claro que compreendo, o silêncio continua, continuo dentro dele, deixei-me lá ficar, espero por mim dentro dele, não, ninguém espera no silêncio, nunca mais vou adormecer, serei eu, ou continuar a sonhar, sonhar com um silêncio, um silêncio de sonho, cheio de murmúrios, não sei, são palavras, é o que há, tem de se continuar, é tudo o que sei, eles vão parar, sei bem o que isso é, sinto-os largarem-me, haverá silêncio, por uns instantes, alguns instantes, ou será o meu, aquele que dura, que não durou, que continua a durar, serei eu, tem de se continuar, portanto vou, tem de se dizer palavras, enquanto as houver, é preciso dizê-las, até eles me encontrarem, até eles me dizerem, estranho castigo, que é preciso continuar, talvez já tenha acontecido, talvez eles me tenham dito, talvez me tenham transportado ao limiar da minha história, à porta que dá para a minha história, muito me admiraria, se ela se abrisse, vou ser eu, vai haver silêncio, aqui onde estou, não sei, nunca saberei, no silêncio não se sabe, tenho de continuar, não posso continuar, vou continuar.

Renata Camacho