São muitos os que defendem que só os exames conferem rigor exigência e qualidade à escola e apoiam a reintrodução este ano, da vertente avaliativa para o aluno, nas provas do 4ºano de escolaridade. Como se os tempos fossem os mesmos de antigamente, ou as finalidades da escola e das suas aprendizagens e os contextos históricos e sociais não tivessem mudado. Parece estar a esquecer-se que ao contrário de agora, o exame de 4ªa classe da antiga Escola Primária era o fim do percurso escolar, para a esmagadora maioria das crianças que a frequentavam, a que se seguia a introdução imediata no mundo do trabalho, ou a aprendizagem de uma profissão. Era diverso então, o entendimento do papel da escola, da educação e inexistente a ideia de direitos da criança, ou respeito pelo seu desenvolvimento, nesse país a preto e branco, pobre, elitista e inculto.
O que avaliam os exames? Sabe-se não ser esta uma questão pacífica e a argumentação apaixonada lavra entre os que os defendem e os que os acham supérfluos e anacrónicos. O exame é um momento, uma pausa no contínuo processo do conhecimento, e dificilmente conseguirá condensar nas duas horas de prova, toda a dimensão dos conteúdos lecionados num ano ou ciclo de escolaridade. Será tão só uma amostragem de conhecimentos e competências, uma pequena parte dos programas curriculares. Pensar que as respostas na folha de prova definem a qualidade da escola, do aluno, do sistema educativo, no limite, do país, é extremamente redutor. Exame é saber para a hora e esquecer no momento seguinte… E irá condicionar a qualidade dos resultados, porque haverá sempre diferentes graus de conhecimento por uns e outros, deixando o factor sorte ou acaso de uma nota determinar a vida dos alunos, o que à partida parece injusto. Exames e justiça, raras vezes coincidem em termos de avaliação do real trabalho desenvolvido pelo aluno no seu percurso escolar. E os professores que acompanham o percurso dos seus alunos sabem como a nota do exame fica muitas vezes frustrantemente aquém do que eles sabem e são capazes…
A escola e a necessária monitorização dos processos de ensino e das aprendizagens realizadas obrigam a muito mais do que uma prova escrita de exame, baseada na memorização de conceitos e noções que se debita em duas horas para a efémera nota da pauta, ou do que os delirantes rituais da sua realização, em que se pensa cumprir os conceitos de igualdade de oportunidades, rigor e isenção, através de uma profusão de procedimentos dentro e fora da sala de prova, e da mobilização de toda uma máquina administrativa e burocrática, que quase paralisa o resto da vida da escola. A constante evolução dos sistemas educativos e da investigação no capítulo da avaliação pedagógica aconselha outras formas de verificar a qualidade dos saberes. E será discutível esta pretensão de medir conhecimentos, quando é incomensurável a dimensão do saber… Mais importante será estimular a vontade de aprender mais e melhor. É o exame a fórmula mágica? Todavia, é compreensível o ruído à volta da realização dos exames escolares. A sociedade considera as provas de exame instrumentos de fiabilidade absoluta, aferidores objectivos e rigorosos das aprendizagens e valoriza-os pelo seu carácter estandardizado. Elemento de credibilidade e validade é o facto de todos os candidatos desempenharem as mesmas tarefas no mesmo espaço de tempo e segundo as mesmas condições. Para a sociedade, estes testes valem mais do que a avaliação sistemática, contínua, partilhada entre professor-aluno, com base em instrumentos diversos e no conhecimento que o professor tem, fruto da observação e acompanhamento dentro e fora da sala de aula ao longo do ano, ou de um ciclo de ensino. Trata-se da face social externa mais visível do sistema educativo, em termos de realização do direito à Educação, em democracia em permanente escrutínio, pelos diversos actores da cena social e política, podendo converter-se em instrumento privilegiado de pressão, como se verificou nas recentes negociações entre o Ministério da Educação e os professores. Não esquecendo o impacto na economia, na indústria livreira e dos explicadores e os custos financeiros para o ME.
Enquanto mecanismo avaliador da globalidade das aprendizagens, é limitada a abrangência destas provas nacionais, pese embora a evolução das técnicas de elaboração de pergunta e o rigor e detalhe dos critérios de correcção, tendentes a conferir-lhes, na óptica dos seus defensores, uma auréola de objectividade. A dúvida coloca-se no entanto, nos processos de revisão de prova, em que um professor da confiança do aluno avalia a correcção realizada e a nota atribuída, em função de argumentação interpretativa dos critérios de correcção propostos pelo júri nacional de exames e a sua aplicação pelos professores correctores. Não é raro a nota alterar-se, até nas disciplinas exactas, como a Matemática! Objectividade? À escola e aos professores é reconhecida a capacidade e confiada a missão e responsabilidade de ensinar, formar, acompanhar o desenvolvimento das crianças e jovens, tarefa que envolve a constante realização de testes diversos. O sistema possui entidades que monitorizam todos estes processos. E os bons resultados obtidos nas avaliações internacionais do TIMMS, PIRLS, PISA, que tanto envaidecem os governantes, à escola e aos professores se devem. Questionável portanto a sua subalternização na avaliação, face à importância conferida aos exames, só porque elaborados pelas autoridades centrais do sistema educativo. Questão de confiança?
Júlia Caré