Portanto, estava eu no supermercado. Eu e julgo que também uma boa parte da população do Funchal. Bom, estarei a exagerar, mas foi a sensação com que fiquei, tal era a confusão junto da secção dos frescos, das carnes, da fruta, até na fila para o pão, mas sobretudo nos corredores. E porquê? Porque era aquele dia de promoções. E já se sabe como é. Parece uma selva.

Hoje toda a gente sabe - minto - quase toda a gente que vive do suor do seu trabalho sabe, assim é que é, quando é que há exactamente preços mais baixos nos produtos dos supermercados. É mesmo uma necessidade, quase primitiva, quiçá, uma actualização contemporânea do instinto de sobrevivência destes, vá lá, mamíferos, que têm tanto de racionais como de selvagens.

Ora, como tudo o que é importante na vida, coisas úteis como o vale de desconto, o talão e o cupão (ou ‘cupon’, como muitos insistem em chamá-lo), foram, durante muito tempo, persistentemente desprezadas pelos madeirenses. Eram tidas como coisas de gente pobre. Mas as leis desta selva de pedra impostas sobretudo contra os mais fracos estão a obrigar ao regresso a tempos de carência que forçam ao uso de tácticas de sobrevivência. Não há alternativa.

Portanto, como referi, estava eu no supermercado. Qual não é o meu espanto quando reparo que, de uma forma aberta e para todos quantos quisessem ver, o casal do lado e ainda uma senhora que estavam na secção dos iogurtes estavam a escolher o que iam levar pelos vistos não com base nas necessidades de nutrição, mas sim com base nos cupões de desconto. Mais à frente, a cena repete-se, desta vez com outras pessoas e noutras secções. De repente, caí em mim e pensei: o que aconteceu para, gradualmente, termos de andar a contar os cêntimos todos os dias? Ou melhor, aqueles que ainda têm cêntimos para contar, já que são milhares os que nem trabalho nem apoios sociais têm. Pessoas a quem tiraram a dignidade, a quem é negada a oportunidade de trabalhar, forçando-as a comportamentos quase selvagens, primitivos, humilhantes para um ser humano.

Com casa para pagar, luz, gás, água, escola (da filha, no meu caso), comer para a família, gasolina e outros tantos calotes feitos pelos governantes que nos caem em cima sob a forma de impostos, o que será dos madeirenses? Sem poderem sair, nem que seja por um fim-de-semana, com a família, sem poderem tirar umas férias e viajar à ilha do lado, sem poderem escapar a esta selva que nos oprime… sem poderem escolher, livremente, aquele queijo, aquela carne, aquele peixe. Entristece.

Quando vejo o que se gasta em viagens políticas e afins, quando vejo os confortos, os luxos e os mimos que os eleitos não abdicam, seja em passeatas e almoçaradas, fora o que não se sabe, dou para mim a pensar que quem se sente bem perante estas imoralidades é porque nunca teve outra coisa a não ser o prato cheio. Nunca dormiu numa casa em que chove dentro. Nunca teve de recorrer ao serviço público de saúde e esperar horas para ser atendido. Nunca teve de fazer apenas uma refeição por dia. Nunca teve de recortar cupões de desconto, ir ao supermercado e misturar-se com os selvagens, os mesmos a quem pediram outrora votos (de confiança) para agora andarem entretidos em passeios.

Ironicamente, quando se trata de comer lagostas e a beber champanhe, seja nesta ilha ou noutra qualquer, todos sem distinção têm lugar. A bem da verdade, eles nunca esquecem que é preciso povo para servir à mesa. E isto deveria pôr-nos a pensar. Acho. Enquanto eleitores, enquanto cidadãos. Hei-de voltar a este assunto. Vemo-nos no supermercado. Se tivermos sorte.