Muito se tem discutido em relação aos factores que podem desencadear um segundo resgate. Uns dizem que se tivermos eleições antecipadas não nos poderemos escapar de um segundo resgate. Outros dizem que temos de evitar eleições antecipadas a todo o custo e que só um casamento entre os três partidos do arco do governo nos salvará de um novo resgate. Para mim tudo isto é uma falsa questão, pois considero que Portugal não conseguirá sobreviver em 2014 sem a ajuda dos seus parceiros europeus.
O caminho percorrido pelo país até ao momento da demissão de Vítor Gaspar, já se estava a direccionar para um novo resgate, mas foi no momento dessa demissão que o país deu mais uma guinada, tomando definitivamente o rumo em direcção a um segundo pedido de ajuda. E não há volta a dar. O caminho para além de estar claramente direccionado para um novo resgate, é tão estreito que nem dá para fazer uma manobra de inversão de marcha. Para percorrer este caminho só temos duas nuances. Ou percorremos o resto do caminho num automóvel pintado de laranja, rosa e azul, e chegamos a Junho de 2014 com um governo de salvação nacional que nos vai dizer que é necessário continuar com ajuda externa. Ou percorremos o resto do caminho com qualquer outro rearranjo governativo que passará por eleições antecipadas, culpabilizando o condutor do carro rosa por nos ter induzido ao segundo resgate.
Portugal sairá do actual memorando de entendimento com um rácio de dívida pública superior a 130% do PIB (previsão da OCDE), com uma redução acentuada no consumo interno, e com uma forte desalavancagem no sector privado e consequente aumento dos níveis de desemprego. Tudo isto irá condicionar a capacidade de financiamento externo da economia. Portugal, pelas últimas emissões de divida a 10 anos, está a pagar mais de 5,5% ao ano, o que é absolutamente insustentável para um país que ainda está longe de encontrar um padrão equilibrado de crescimento económico. Mesmo se encontrarmos uma solução governativa estável, as condições de financiamento vão continuar desfavoráveis, pois o cenário macroeconómico não irá mudar no curto prazo, e este ainda não deu, nem dará a confiança necessária aos investidores externos para que Portugal seja capaz cobrir sustentadamente as suas necessidades de financiamento.
Se chegarmos a Junho de 2014 à boleia de um “governo estável” de salvação nacional, as instituições europeias vão tentar disfarçar o novo resgate, como forma de recompensar o bom aluno, e vão muito provavelmente dar outro nome e nova roupagem ao novo programa de ajuda. A designação de segundo resgate seria muito forte para um bom aluno já cansado e desgastado de tanta pressão e poria em evidência o fracasso do desenho do primeiro resgate. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, já veio defender um programa cautelar, para acompanhamento das politicas e da evolução económica, funcionando também como uma espécie de seguro ou linha de crédito de reserva, no caso de Portugal não conseguir aceder aos mercados a uma taxa de juro sustentável.
No caso de chegarmos a 2014 com um novo governo resultante de um processo de eleições antecipadas, não será necessária muita criatividade e as instituições europeias vão acudir através de um segundo resgate, com as consequências que tão bem conhecemos, como forma de castigar as instituições e os portugueses pelo fracasso.
Seja como for, após Junho de 2014, teremos mais do mesmo. Continuaremos a viver num país muito vulnerável, incapaz de se financiar sem auxilio, onde as principais regras e linhas económicas serão ditadas pelos nossos principais credores, que com uma espécie de paternalismo antigo, nos castigam pelo o que acreditam ser o excêntrico modo de vida do “Sul da Europa”.
Luís Pedro Branco