Há umas semanas perguntava ao sociólogo António Barreto qual era, a seu ver, o maior problema do país. Ele riu-se da pergunta. Porque os países são como as pessoas que envelhecem. Até podem ter uma doença predominante, mas vão sendo afectados por uma série de maleitas, que lhes afectam a mobilidade, o discernimento e em muitos casos as incapacitam de vez.

O sociólogo só podia achar graça à pergunta, permitida ao jornalismo, mas dificilmente às ciências sociais. Começou, porém, a fazer um diagnóstico por alto. Eu, confesso, estava à espera que atirasse de imediato a corrupção. E embora reconhecesse que esse é um cancro maligno que ataca não só Portugal, como outros tantos países da Europa, António Barreto acabou por eleger como pior dos males, uma doença aparentemente mais inofensiva, mas que corrói Portugal por dentro há anos a fio: A partidocracia.

“Quando se tem como lei do país que os cargos superiores da administração pública são nomeados por confiança política, o que quer dizer partidária, quando isto é a lei, sabe-se que toda a administração está refém do partido do poder. Sabe-se à partida, que do ponto de vista político não se pode confiar no Estado, porque presidentes de instituições, directores-gerais cessam funções com o Governo”, justificou.

E tenho-me lembrado várias vezes das suas palavras por estes dias que se apregoam de salvação nacional. Em que de goela aberta se gritam valores da defesa da pátria, em detrimento de interesses pessoais. De reuniões que parecem deixar o país em suspenso, mas que afinal apenas o lançam num longo e colectivo bocejo, interrompido por cartas “de notáveis” (de quem vive à sombra dos cargos de nomeação política) que apelam a entendimentos, que já se sabe estarem condenados à partida.

A própria decisão de Belém –de ‘obrigar’ a um entendimento entre partidos – chega tarde, a más horas e tresanda a partidarismo e a vingançazinhas pessoais. Cavaco sabia com o que contava desde sempre. Conhecia bem os intervenientes, por quem nunca nutriu especial simpatia. Mas foi incapaz de antecipar este desfecho. Sabia que Passos estava a subjugar Portas a um nível, para ele, pessoalmente insuportável e que, infelizmente, isso acabaria por ter consequências para o país. Não interveio antes de o PS apresentar uma moção de censura e agora chama-o para resolver a trapalhada, responsabilizando-o . Deixou queimar e agora deixa a mangueira de Belém aberta e vai para as Selvagens à espera que o fogo seja circunscrito. Que aguentem até o ano, que depois podem voltar às suas guerra internas.

Na hora de repartir culpas, é tão ladrão o que vai às laranjas, como o que fica cá fora a vigiar e foi isso que Cavaco fez. Não compreendo os que aplaudem este acordar tardio do seu entorpecimento presidencial. Há um ano, o Governo podia ser de salvação, agora quando muito é de cuidados paliativos duvidosos.

Esta decisão chega numa altura em que o país, jaz, prostrado pela artroses, causadas pelo partidarismo de que sofre há anos e de que Cavaco é o principal impulsionador. Mesmo que lhe vista a sua melhor roupa de festa, também conhecida por superior interesse do pais.