Os últimos episódios políticos ultrapassaram todos os limites do razoável. Lançada a confusão total e a esquizofrenia colectiva, uma narrativa deliberadamente montada pela “classe gardée”, envergonham, claramente a Política e ferem os princípios democráticos. Quaisquer que sejam as teses e teorias apresentadas ficarão aquém da descodificação e abstração necessária à sua compreensão. Entrámos no domínio do absurdo (nem Kafka foi tão longe na sua ficção)! É a decadência da classe política. Não confundamos classe política com instituições políticas (partidos políticos, parlamento ou executivo). Os agentes políticos estão em acelerada decomposição, eles próprios à espera da messiânica salvação nacional e extrema-unção. É inevitável que o ricochete estremeça as instituições democráticas, fruto da conduta dos seus agentes. Ainda assim a sua existência é superior à sobrevivência dos agentes políticos, que a cada momento exercem o poder político.
A história política ajuda-nos a perceber o processo. A democratização do país alicerçou-se no endividamento, instrumento cardeal de governação (nacional, regional e local) utilizado ao longo dos anos para valorizar a auto-estima e elevar egos, agrilhoando clientelas e dependências. A vanguarda da modernização e do desenvolvimento foi despoletada e propiciada pelo “dinheiro europeu”, galvanizado pelo argumento e estilo presidencialista de Aníbal Cavaco Silva, de promover o país no “pelotão da frente”. Responsável pelos gloriosos investimentos em infra-estruturas do então Portugal periférico, comprometeu um Povo, um Território e a própria Soberania. Desde 1995, muitos são os que reclamam das opções e decisões políticas e das consequências que coartaram as opções subsequentes.
É o mesmo protagonista que neste momento, com outra roupagem e no pedestal de “representante de todos os portugueses” quer garantir, novo compromisso (em forma de triunvirato) por mais alguns anos. O estilo é diferente, mas a base é sempre a mesma! Uma crise política que antes de o ser já o era, implodiu na orgânica do Governo, e Aníbal, em formato de “tese, antítese e síntese”, faz de conta que usou todo o arrojo dos poderes presidenciais e propõe a solução construtivista (que de resto não se sabe qual é). Baralhar, para que tudo fique na mesma. A Esquerda entretanto faz “xeque-mate ao Rei” e anuncia abertura à alternativa, enquanto Aníbal continua no embuste selvagem. Nada disto é para levar a sério, a engrenagem deixou de funcionar!
Entretanto, a Madeira “não pára”! É a normalidade superlativa. Até as inaugurações voltaram. Entre projectos falidos e cofres vazios, é imperativo manter a “banda a tocar” e ganhar eleições, fingindo o cumprimento do PAEF, agora com o Orçamento Rectificativo aprovado sem votos contra, fantástico! É o expoente máximo da incoerência e decadência que concretizarão a mudança e a alternativa? O fundo, cedeu!
Teresa Ruel