Conheci acidentalmente um casal espanhol a meio do concerto dos The Gift, no parque de Santa Catarina, com quem troquei algumas impressões acerca do triste estado em que se encontra a nossa Ibéria. Eles andam lá indignados com o Rajoy por ter recebido 50 mil euros do partido. Nós andamos resignados com a prescrição do processo judicial que permitiu ao nosso ‘Jáfoy’ limpar quase 400 mil euros ao hospital sem lá ter posto os pés. Eles têm os escândalos do rei D. Carlos e da infanta Cristina que terá vendido casas sem declarar ao Fisco. Nós rendemo-nos às excentricidades do nosso ‘rei’ e seus ‘infantes’ que andaram a construir elefantes escondendo mais de mil milhões de euros em facturas que não foram reportadas ao Banco de Portugal, nem ao Instituto Nacional de Estatística, nem mesmo ao Fisco português.

Angel, natural de Badajoz, oficial do Exército e tenente de Artilharia, este ano decidiu trocar Albufeira para vir conhecer a Madeira pela primeira vez. Ficou hospedado no Pestana Casino Park Hotel e, à excepção da hospitalidade das nossas gentes, o ‘extremadureño’ confessa que não ficou deslumbrado com a nossa encantadora ilha. À noite o Funchal é uma cidade morta, um deserto comparado com Ibiza ou Albufeira, onde o casal tem passado os últimos Verões. Perguntou-me se é sempre assim. Respondi-lhe com outra pergunta: quantos hóspedes viram no hotel com menos de 60 anos? Ele deu uma gargalhada, abanando a cabeça em sinal de concordância. O turismo da Madeira precisa de amadurecer, tem uma visão redutora a fazer lembrar o estado dos nossos países Ibéricos: não quer nada com os jovens. Mas não têm pejo em cobrar-lhes pela crise que não fizeram, mesmo que não tenham uma oportunidade para poder pagar. Ambos tratamos o desemprego por irmão e espreitamos a emigração por detrás dos Pirenéus.

Aqui, respondi-lhe concretizando, só há espaço para velhos: não só nos quartos de hotéis 5 estrelas, como também no turismo e na política. Os jovens enfermeiros emigram. Os professores contratados mudam de vida. Os pedreiros, engenheiros, arquitectos e jornalistas ficam desempregados e os recém-licenciados plantados a recibos verdes. E mais convencido ficou quando soube que quem manda no Turismo da Madeira é uma reformada, que a Madeira é governada há 36 anos pelo mesmo homem, hoje reformado, e que o presidente da Casa da Democracia, onde as leis são feitas por deputados que ali fazem carreira a pensar na reforma, é também presidido por um reformado. Sónia Tavares calou-se no palco e ouvimos a multidão pela primeira vez. Após uns segundos de perplexidade , o meu amigo castelhano perdeu o sorriso. Pensativo, de queixo caído, sobrancelhas arqueadas. Sugeriu-me, talvez para fim de conversa, que um dia fosse visitar Cádiz. Que tem uma praia lindíssima com areal de 20 quilómetros. Talvez um dia, respondi. Do palco, The Gift trazia-nos a música apropriada ao momento: “Fácil de Entender”.