Nos dias que correm, o espanto é o sentimento mais comum a todos e assim que nos começamos a sentir invadidos pela indignação logo, uma outra asneira sucede diante dos nossos olhos. Este parece ser o extraordinário país em que a realidade ultrapassa largamente a comédia! O absurdo mais completo passou a fazer parte do nosso quotidiano: gente sem pinga de honradez que toma decisões irrevogáveis para no dia seguinte dar o dito por não dito; responsáveis políticos que mentem à descarada para fazer valer os seus argumentos; ministros que são casos de polícia; um presidente da república que põe o país em modo “adiar” e vai dormir para as Selvagens; uma espécie de primeiro-ministro que cria tabus para a comunicação social; uma troika de “salvação nacional” entregue a quem foge ao fisco; gente com responsabilidades que em nome da “estabilidade política” põe as vidas dos portugueses a prazo.

A par disto tudo, os que estão ansiosos pelo regresso aos dias do totalitarismo, da ditadura e da repressão andam para aí a fazer acusações contra a Democracia e a denegrir o sistema parlamentar. Os saudosistas do fascismo sabem bem que o desespero dos que se sentem defraudados na sua esperança, dos que se sentem aflitos perante um presente muito difícil e um futuro incerto, ouve as suas falsas denúncias e, por isso, confundem de propósito colocando no mesmo saco, os oportunistas e os que cumprem os mandatos para que foram eleitos com coerência e dignidade.

Não é por causa da Democracia que esta terra está a saque.

Quem elegeu estas maiorias parlamentares, estes governantes cá e lá? Quem elegeu este presidente da República? Uma minoria. A maioria ficou em casa a pretexto do desencanto ou de outra coisa qualquer. Se nos agrada a comédia burlesca em que vivemos, continuemos a engrossar o absentismo eleitoral mas se queremos contribuir para um Portugal e uma região melhores, então, ao menos, vamos lá exigir eleições e votar.

Um mundo anedótico será mesmo aquele em que os cidadãos prescindem dos seus direitos e repetem os argumentos assassinos dos seus carrascos.

Isabel Cardoso