Estamos hoje perante a mais preocupante situação dos 40 anos do Portugal democrático. Não se trata de escolher um rumo mais à direita ou mais à esquerda, com este ou aquele protagonista, mas duma situação de tal gravidade que, façamos o que façamos, corremos o sério risco de não a conseguirmos ultrapassar semduras penas e amarguras para nós que pagamos todas as contas e que temos como maior culpa o não sabermos, de todo, escolher os nossos governantes.

Não pretendo fazer um fácil e populista manifesto anti partidos. Considero os partidos e a política essenciais à vivencia democrática, mas, se os partidos não cumprem o seu papel, se são liderados por incompetentes, por pessoas de má fé, interesseiros e paladinos de interesses diferentes dos da coisa pública, torna-se imperioso e urgente procurar outras soluções alternativas, porque o país e a vida das pessoas tem de continuar, com estes ou outros protagonistas.

100% das culpas da situação atual pertencem aos três partidos do chamado “arco do poder”, ao PS, ao PSD e ao CDS. Não houve nenhum outro partido com responsabilidades governativas, pelo que as responsabilidades são exclusivamente deles, têm as mãos sujas, pois, numa ou noutra altura, todos cometeram ações ou omissões, quer por terem absoluta necessidade de servir clientelas, quer por pura imbecilidade ou simples estupidez.Tudo piora quando a estas situações se alia o fanatismo ideológico e a mais absoluta falta de sensibilidade social.

Ao referir-me aos partidos, refiro-me à tónica e atuação dominantes, não me refiro à gente séria e competente que a eles pertence. Relativamente a estes considero que enfermam do mesmo mal da restante população pois também não sabem escolher os seus líderes.

No meu entender, as origens próximas-passadas da atual crise remontam a 1985, com a chegada ao poder de Cavaco Silva (CS), o homem que mais tempo esteve na liderança do país, 10 anos como Primeiro-ministro e sete como Presidente da República. Como Primeiro-ministro, legou-nos o desmantelamento da nossa estrutura produtiva, da agricultura às pescas, passando pela indústria, aumentando a nossa dependência do exterior, em troca de milhares de milhões de ajudas e fundos estruturais que, em vez de servirem para a modernização do país, investindo de forma rigorosa e controlada e setores reprodutivos, serviram,no essencial, a clientela que a eles teve acesso.

Como presidente tem uma visão de “Alice no País das Maravilhas”, de mão dada com a sua Maria, passeia-se, evitando confusões e a chatice de ter de tomar atitudes. Quando o faz, fá-lo a más horas e pelas razões erradas ou por pura e simples “revanche”.

No PSD temos uma criatura fanática e obstinada produzida no aviário da “J”, sem jeito nem experiênciade nada, aliado da finança mais rapace e gananciosa. Não ouve nada nem ninguém, nada o detém, quer seja tribunal, opinião pública ou mesmo o consenso alargado dos parceiros sociais. É contra qualquer direito laboral. No seu afã ultraliberal, tudo quer privatizar, todos os sectores públicos rentáveis.Nacionaliza apenas os prejuízos da finança, ao mesmo tempo que imagina novos “agradinhos” para fazer à troika.

O PS herdou o pesado legado de José Sócrates. Deixou-nos um país hipotecado até à medula, pelas obras faraónicas muitas das quais completamente desnecessárias, PPP’s, Swaps, dívida oculta por todo o lado. Deixou todo um país à mercê das rendas excessivas, dos preços especulativos em sectores essenciais como os da energia, de forma a manter o sector da alta finança bem alimentado. Seguro, igualmente “imberbe”, tem a seu favor o fato não ter “alinhado” e o de ter até criticado José Sócrates, parece ser uma criatura bem intencionada, no entanto nunca se demarcou do passado, nunca reconheceu os erros cometidos, não por si próprio, mas pelo partido a que pertence.

Quanto ao CDS, finalmente dá alguns indícios de existir para além de Paulo Portas (PP) que continua a fazer e a desfazer, tal como sempre fez e desfez, em função do seu projeto pessoal, às custas de tudo e de todos, assegurando sempre para si próprio a luz mais brilhante. Desta vez chegou-se tão próximo da luz, que as pessoas viram claramente o seu verdadeiro caráter.

Assistimos, nas últimas duas semanas, à política mais rasteira, aos jogos mais torpes e repugnantes da parte de quem tinha tudo nas mãos, um governo, uma maioria e um presidente. Incapazes de qualquer consenso, sem admitir os seus erros, prosseguem as mesmas políticas, apenas com a única diferença de um dos elementos decisivos ter passado a usar saia.

Pela primeira vez, concordo com uma medida de CS, a de recusar a recauchutagem demagógica e mal-amanhada proposta por PC e PP, que não levaria o país a lugar nenhum nem resolveria nenhum problema pela simples razão de que aplicando a mesma receita não chegariam a um resultado diferente. Para além disso como conviveriam PP e a Gasparina nas finanças?

CS, lembrou-se, de repente, que era presidente e veio a terreiro, intimando os três partidos a entenderem-se, a dialogarem… Onde esteve há dois anos, há um ano, o mês passado, quando PC, estava no seu melhor, ostracizando o PS, tomando sozinho todas as decisões, contra tudo e contra todos? O PS não poderá de todo alinhar nesta solução, pois se o fizer,cometerá suicídio.

Relativamente à hipótese de convocação de eleições antecipadas, em primeiro lugar,considero que CS não é o dono da democracia para dizer que … a 15 de Julho de 2014, pelas 15:00h, dissolverá a Assembleia da República. Só o poderá fazer em circunstâncias muito específicas previstas na constituição. Por outro lado, que resultados esperar? Haverá alternativa? Não creio que haja uma real alternativa porque o país está como está devido em grande parte à ação do PS e de José Sócrates,de que as pessoas ainda estão bem lembradas. Por outro lado, apesar de bem intencionado, presumivelmente honesto e com uma ideologia e política mais consonante com os interesses do país, nomeadamente no que refere à dose de austeridade e negociação com os parceiros europeus, Seguro ainda está verde, não tem a consistência nem a experiência necessárias.

No meu entender a solução não está nos partidos que constituem a atual geometria política, com os atuais líderes, com as suas posições extremadas e enquistadas. Há demasiado dogmatismo, compromissos e interesses envolvidos, todos já fizeram muito mal ao país. Nada nos garante que no futuro imediato procedam de forma diferente.

Que resta, então? No meu entender deveria ser cooptado, por maioria qualificada (como já acontece para alguns cargos), um conselho de sábios pela Assembleia da República, à qual prestaria contas e que teria por missão enfrentar os problemas urgentes, de frente e sem preconceitos ideológicos, não tendomedo de fazer fretes aos lobbies e aos amigos capitães da economia e da finança que,tal como até agora, tudo farão para boicotar qualquer solução que lhes passe pelo bolso.

Tal solução permitiria ao país responder aos seus compromissos imediatos e daria tempo aos partidos de se reestruturarem, se reposicionarem ideologicamente, procurarem outras lideranças, de forma a cumprirem a missão que deles se espera. Ao mesmo tempo proceder-se-ia a uma verdadeira e alargada discussão pública sobre a restruturação do país.

A única certeza que tenho é que seremos uma vez mais nós, os cidadãos, a “pagar o pato”.

P.S. A quem se interessa por estes assuntos recomendo a obra “O Meu Programa de Governo” de José Gomes Ferreira,Ed. Livros d’ Hoje, onde, de uma forma desassombrada é feita uma análise aprofundada da situação atual do país, das dívidas e dos seus protagonistas.

Hélder Melim