Se a ficção científica, no limite da sua criatividade, não consegue trazer Erasmo de Roterdão até aos nossos dias, eu tenho esse fantástico poder na ponta da minha caneta. Ele que, em 1509, escreveu uma obra-prima que dedicou a Thomas More e onde elogiou a “loucura”, certamente que não iria elogiar a loucura que tomou conta deste nosso país.

Como poderia Erasmo de Roterdão, pregador da retidão, elogiar a loucura de um ministro que faltou com total despudor à palavra? Palavra com que se comprometera solenemente, na praça pública e de forma “irreversível”? E o mais grave é que esse ministro continua a ser ministro sem esboçar a mais leve intenção de se imolar pelo fogo no pelourinho da credibilidade!

Como poderia Erasmo, teólogo humanista, elogiar a loucura de um outro ministro que, durante dois anos, assaltou impiedoso, os frágeis e desprotegidos, lançando-lhes impostos destruidores em nome de uma santa cruzada a favor de uma banca usurária que se esconde por detrás dos “mercados”?

E o mais grave é que esse ministro, reconhecendo o falhanço da sua política funesta, foi-se embora serenamente, sem sobressalto nem inquietação, deixando um rasto de terra queimada e regressando discretamente ao nevoeiro secreto donde viera um dia. Tão corajoso a fazer cumprir as ordens do além misterioso, faltou-lhe a coragem para se apresentar de corda ao pescoço e pedir perdão ao país pela sua incompetência compulsiva.

Como poderia Erasmo, homem de grande rigor intelectual, elogiar a loucura de um primeiro-ministro que protege, com servil vénia, quem ameaça castigar, humilhar e dissolver num fundo monetário qualquer esta nação com mais de oito séculos de existência? Um primeiro-ministro que esconde as demissões dos seus ministros, jurando que o mau cheiro que paira sobre o país não é o perfume pestilento do seu governo em decomposição, mas a brisa que sopra duma Europa de águas estagnadas e areias movediças? Um primeiro-ministro que na falta de um curriculum de vida que legitime a mais elementar das competências, se agarra ao poder com o desespero da arrogância dissimulada?

Mas o Elogio da Loucura de Erasmo nada tem a ver com todo esta loucura de gente pequena, pindérica, mesquinha, interesseira que envergonha e humilha o nosso país. Pelo contrário, a loucura erasmiana é uma deusa que inspira uma paixão superior só ao alcance de uma liberdade intelectual plena mas responsável e eticamente comprometida com valores e princípios.

Esta mensagem é particularmente oportuna no momento em que vivemos. Talvez entendendo os sinais dos tempos, a Academia da Escola Francisco Franco organizou, em princípios de Maio, uma interessante reunião cujo ponto de partida foi exatamente a obra de Erasmo. E, assim, um psiquiatra, um ator, e eu participámos neste encontro com jovens alunos. E gostei!

Senti-me confortável no meio daquela gente, talvez porque sempre olhei para estudantes e professores como gente generosa e genuína. Jovens verdadeiros sem compromissos prévios, interesses ocultos ou agendas já programadas. Professores generosos que me ajudaram a crescer com o rigor da matemática, o respeito pelo passado e a vontade de construir a minha liberdade intelectual. Talvez por sentir a Escola desta maneira, custa-me entender que a minha Escola se acomode à prepotência de quem manda e aceite, sem reagir, o insulto fácil que contamina o debate das ideias. Não entendo porque fica indiferente perante a injustiça social e calada frente à incompetência de quem nos governa.

O novo ciclo que já se desenha na Região só será honesto e consistente se, em todas as escolas, o conhecimento for competente e a liberdade intelectual andar à solta. Se o Elogio da Loucura não assustar os professores e a liberdade responsável e eticamente comprometida de que falava Erasmo de Roterdão for ensinada aos alunos.

Aí teremos uma sociedade mais culta, mais livre, mais exigente, mais “louca” e o futuro desta Ilha estará, finalmente, entregue em boas mãos!

Manuel de Brito