A decisão do Presidente da República em pedir um compromisso de salvação nacional entre PSD, CDS e PS, foi para mim uma grande surpresa. Como sei que o PR nem gosta de ouvir falar em eleições antecipadas, estava convencido que ia dar o seu aval à proposta de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, e por isso até mudei de canal no momento da sua declaração ao País. Qual não foi o meu espanto, quando me apercebi que afinal a resposta do PR foi um Nim. Uma meia medida. Um chutar a bola para a frente. Não convocou eleições antecipadas, mas abre essa possibilidade para Junho de 2014… Avalizou o actual governo, mas quer um acordo politicamente mais abrangente… Enfim… mais uma confusãozinha para baralhar os investidores internacionais que se sentem mais uma vez perdidos e fazem reflectir essa instabilidade na yield associada aos títulos a 10 anos.

Fica claro que Cavaco Silva não acreditou na estabilidade da solução apresentada pelo PSD e pelo CDS. Aliás, penso que nem Pedro Passos Coelho nem Paulo Portas acreditavam.

Cavaco Silva como parece querer evitar eleições antecipadas a todo o custo e como não acreditou na proposta da coligação, não teve outra hipótese se não a do compromisso de salvação nacional entre os três partidos do arco de governação. No entanto há uma questão que se impõe. Não saberia o PR que Seguro não está disponível para integrar este governo e que vem exigindo a marcação de eleições antecipadas já para Setembro há já algum tempo? Não terá sido isso que Seguro foi dizer a Belém? Como o consenso alargado parece improvável, Cavaco Silva num tom de pressão, diz no seu discurso, que caso não haja acordo, os portugueses irão tirar as suas ilações e que encontrará outras soluções no sistema jurídico-constitucional.

Sem querer contradizer o Sr. Presidente da República, não me parece que existam muitas mais soluções, quando se exclui a possibilidade de eleições antecipadas. Mesmo que Cavaco Silva tente um rearranjo nos membros do Governo ou outra qualquer fórmula governativa, o programa de governo resultante terá de passar pela Assembleia da República com a actual composição, a menos que se decida dar um interregno à democracia.

Como todos sabemos, as posições extremadas que estão a caracterizar os discursos políticos, dificultam qualquer consenso. Também vão dificultar o consenso as cedências já feitas pelo Primeiro-ministro a Paulo Portas. Para haver consenso é necessário recalibrar o peso no governo dos 3 partidos de acordo com os resultados das ultimas legislativas. Se o PSD já atribuiu ao partido de coligação as áreas consideradas as mais importantes na actualidade, o que vai dar ao PS que foi o segundo partido mais votado das legislativas de 2011? Como se vê, o equilíbrio será difícil, ou até impossível de alcançar. A luta pelos lugares mais desejados e com maior visibilidade pública, e a defesa de pontos de vista e opções mais populares em cada um dos partidos vai impedir qualquer consenso.

A actualidade politica está tão fluida que qualquer previsão tem grandes probabilidades de falhar. Os actores políticos estão cada vez mais imprevisíveis e a perder a pouca credibilidade que ainda tinham, uma vez que parece terem esquecido a força da palavra. Depois do irrevogável de Paulo Portas, todas as declarações podem tomar novas dimensões no dia seguinte, basta que a recompensa seja suficientemente sedutora.

Luís Pedro Branco