Laíz Vieira A respeito do novo programa ‘Olé’, na SIC, transmitido no sábado à noite, pela Bárbara Guimarães e José Figueira, onde a SIC desafia celebridades a vestirem a jaqueta de forcados e a pegarem touros, na arena do Campo Pequeno, venho por este meio, acerca deste concurso, transmitir a minha mais profunda perplexidade, revolta e desilusão.
- Em relação a outros canais televisivos, tinha (ingenuamente) algum respeito e consideração pelo projecto da SIC e transmita-o às pessoas que conhecia, mas a qualidade da programação deste canal, em muitos aspectos, tem vindo a decrescer em convergência ao populismo e à vulgaridade. O programa “Olé” foi o limite do mau-gosto e do inadmissível.
- Como é que se pode considerar uma festa, um espectáculo, uma homenagem seja ao que for, a qualquer evento de tauromaquia? Que arte, que sentido de bravura e virilidade existe numa situação em que há um jogo pervertido da ética e do respeito a que todas as espécies deste planeta têm direito? Como é que se pode considerar nobre ou pedagógica qualquer tradição que incite a exploração, dor, medo e violência?
- A Declaração Universal dos Direitos do Animal, proclamada pela UNESCO e posteriormente aprovada pela ONU em 1978, nos seus artigos 10° e 13° anunciam: “Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem. As exibições de animais e os espectáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.… As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.” Abraham Lincoln disse: “Eu sou a favor dos direitos dos animais bem como dos direitos humanos. Essa é a proposta de um ser humano integral.” - Em 1980, a UNESCO declara: “A tauromaquia é a terrível e venal arte de torturar e matar animais em público, segundo determinadas regras. A tourada agrava o estado dos neuróticos atraídos por estes espectáculos.
Desnaturaliza a relação entre o homem e o animal, afronta a moral, a educação, a ciência e a cultura”.
- O que prevalece de uma reflexão que se quer constante e actuante, sobre este fenómeno, é a gratuitidade da DOR e da VIOLÊNCIA não apenas física como simbólica, inerente aos actos que efectivamente são reais contra os animais, assim como tornar esses mesmos actos em matéria de audiências! - O activista espanhol, José Ignácio Giménez diz: “O que torna difícil a abolição da tauromaquia é o dinheiro envolvido nessa indústria”. Em Março de 2012, foi publicada no Diário da República, a lista dos subsídios atribuídos pelo IFAP (Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e das Pescas) no ano anterior. No ano de 2011 o IFAP atribuiu subsídios no valor de €9.823.004,34 às empresas e membros das famílias da tauromaquia!
- Temos o sentido da empatia, o potencial de nos colocarmos no lugar do outro, de no contexto de linguagens diferentes, percebermos que o bem-estar de uma espécie passa pelo ser aquilo para o qual a “Mãe Natureza” a predestinou, com condições para o desenvolvimento das suas próprias caracteríticas, entre os seus, em segurança, liberdade e dignidade. Aqui o que está em causa, não é a liberdade de gostos e caprichos, mas saber se os mesmos implicam a subjugação de um ser senciente, que não fez escolhas.
Milan Kundera, escreveu: “A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais.” A liberdade, a justiça, a igualdade, o respeito, a harmonia que tanto e há tanto tempo desejamos alcançar, como espécie cultural, que se recria constantemente, numa perspectiva ideológica, ética e espiritual, como pode superar-se em civismo e compaixão quando na paisagem do mundo se promovem as designadas festas de touros?