Na sala, o relógio antigo, de madeira, agora oco. À transparência, a parede da casa: um buraco, o tempo. Sobre a confusa mesa da sala, inútil, o mecanismo por que se soube a medida fortuita do que se subtrai ao futuro, se soma ao passado. (‘Era depois da morte ou era antes da morte?’)
Antes do que se olha para tentar – e falhar – contar, um vidro convexo (como se nos concedesse ampliar a escala do que escapa, um a um, um qualquer, todos os instantes).
Na periferia do mostrador, o círculo exterior do relógio numera a medida dos dias, um, dois, três, trinta e um – impossível exercício de simetria que não acerta meses de dias pares. A mão (‘a inúmera mão’) emenda o mecanismo de dias em descompasso, a cada mês, anos a fio, por todo o tempo.
É nos dedos das mãos que mora a mnemónica: do mínimo ao indicador, em cada nó e nos seus intervalos se conta um, outro, todos os meses. Sobram-nos nós dos dedos: dois – um côncavo, outro convexo. Sobra-nos nas mãos o tempo que nos falha, os dias desacertados com a medida do corpo.
No centro do mostrador do relógio, letra a letra estão inscritos os nomes dos dias, de domigo a domingo, em dois ciclos: duas semanas, quinze dias, meio mês (redondo, redundante, o tempo). É absurdo e tão justo, o erro certo para a medida arbitrária da duração do que se não mede nem conta nem pesa nem vê; é sempre desfocada a duração de um, de cada, de todos os instantes.
Tenho o tempo desfeito entre os dedos: desagregados, o ponteiro das horas (menos longo, mais largo) e o dos minutos (mais comprido, mais curto). Na outra mão, aberta, pousa o ponteiro dos segundos, vermelho vivo (morto).
O mostrador do relógio antigo não tem medida para horas, minutos e segundos; pode ver-se o tempo? Somos em cegueira.
Por dentro da máquina há rodas dentadas – paradas – em torno de um eixo; no centro, uma mola de aço, em espiral, imóvel: a corda, o coração do relógio. Sem andamento nem tensão nem tempo, sem som.
Reparo na pilha que não faz funcionar o tempo; leio “não recarregar”, em maiúsculas, e a data de validade: 30/08/2016. Respiro pouco. O futuro prometido parado.
A trovoada povoa a noite. O ar acabou: levanto o caixilho inferior, por momentos suspenso sobre dois pequenos triângulos metálicos aparafusados nos cantos da parte de cima da janela, em guilhotina. Um súbito som atordoa o silêncio da casa, o vento volteia entre as cortinas, uma confusa dança.
Um gesto – sem mim, sinto – tenta parar o instante da queda, toca o vidro agora partido. À luz do clarão que permanece na parede, olho a palma da mão, o golpe, a golfada funda de sangue.
Do fundo da casa ecoa um outro relógio, com pêndulo, de corda; dele é o som que me toca, a par do pulsar do coração na mão.
Não sei que segundo minuto ou hora em mim mora.
Sei a medida do tempo no corpo, um só, o mesmo compasso. Que hora é ‘agora’?
Diana Pimentel