Este texto começou a ser escrito às 11h15 de sábado, dia 13 de Julho de 2013, quando ainda não se sabia qual a surpresa diária – deve ter sido apresentada alguma -, produzida pela mais fantástica e criativa classe política de que há memória em Portugal, desde a I República.

Depois da natural demissão de Vítor Gaspar, da irrevogável e surpreendente saída de Paulo Portas, da recusa de divórcio anunciada por Passos Coelho, do governo fantástico em que o CDS mandava em tudo e o PSD fazia de fantoche e da espectacular intervenção do presidente da República, a chamar inúteis a todos os políticos dos três partidos do arco da governação, eis que alguém conseguiu superar o insuperável.

Quando, mais uma vez – a terceira, creio -, todos os portugueses, atentos ou indiferentes, esperavam a natural demissão do primeiro-ministro que acabava de ser desconsiderado pelo PR, Passos Coelho consegue a melhor marca (até agora), no concurso das surpresas. Não sai e apoia a proposta de Cavaco.

Mais fantástico, vai para o parlamento discutir o Estado da Nação e apelar ao PS para que participe numa coisa que ninguém sabe o que será, nem sequer se será um governo, mas que tem os dias contados até Junho do próximo ano. Apela ao bom senso dos socialistas, mas esquece-se de pedir aos seus para terem juízo.

Foi caricato ver Passos Coelho e fazer tudo para ter o amigo Seguro perto de si e os seus deputados, com Guilherme Silva e o centrista Telmo a baterem no maior partido da oposição, deixando muito pouca margem para uma aproximação. Mas como para entrar na política (de hoje) é preciso fazer uma intervenção cirúrgica de remoção da coluna, tudo é possível. Muito mais nesta nave de loucos em que a política portuguesa transformou o país.

Por cá, onde já nada surpreende e o nível de loucura atinge proporções de epidemia, foi interessante ver os golpes de rins sucessivos – do tipo triplo mortal à retaguarda – que foram fazendo os envolvidos nesta coisa.

Desde concordar com a queda do governo a estar, de alma e coração com a salvação nacional, o CDS fez de tudo. No fim, optou por ficar calado o que acabaria por ser o mais acertado. Assobiar para o ar também ajuda.

Pior foi o presidente de meio PSD e da quase totalidade do Governo que já tem graves problemas de memória. Depois de ter sido uma dos maiores defensores de um governo de consenso com personalidades de “indiscutível qualidade”, considera uma barbaridade uma proposta semelhante feita pelo presidente da República. Depois, defende um estado de emergência nacional, com governo de iniciativa presidencial. Esta mudança, sinceramente, não percebi. Mas como ainda são 11h45, pode ser que depois do almoço tudo mude, o Norte passe para o Sul e, como cantava a Ala dos Namorados, ‘os rios nasçam no mar’.