Diz um proverbio chinês: “Senta-te e vê o funeral passar.” De facto, respeitando embora as diferenças antropológicas da cultura chinesa para a ocidental, a ideia tem em si todo um fundo de verdade – dramática verdade.

Numa semana passada entre surpresas, alarmes, perplexidades e especulações, a inquietação virou estupefação e o país caiu segundo insuspeito Financial Times no “caos político”.

De facto, Cavaco Silva ao assumir a defesa de um “Compromisso de Salvação Nacional” e ao não aprovar a remodelação governamental de Passos Coelho deixa este governo numa enorme fragilidade para exercer o poder até 2014.

Ao exigir aos partidos políticos um acordo de salvação nacional, numa altura de grande crispação não só com a oposição mas também com os partidos do governo, está ele próprio, indiscutivelmente, a ser um factor de instabilidade.

Tudo indica que nos tempos mais próximos será difícil a Cavaco Silva viabilizar um entendimento deste tipo quando a oposição ainda se recorda do seu discurso do 25 de Abril em que tomou partido por um dos lados da barricada e agora deita para o lixo uma proposta da maioria governamental de remodelação do governo e de uma nova dinâmica política para ultrapassar a crise e, aparentemente, de uma maior estabilidade.

Quando, no meu último artigo defendia o compromisso como regra, fazia-o exactamente nos termos e nos objectivos deste compromisso de salvação nacional que Cavaco Silva aponta. Não no modo e com as implicações que este nos trás. Aliás, já nessa altura alertava que “somos muitas vezes levados no sentido das encruzilhadas que não definimos, obrigam-nos a escolhas incompatíveis com a solidão das posições puras.”

Voltemos aos factos e a analisar mais que os rebentamentos dos primeiros foguetes e mais fundo na percepção de sinais que a intriga verbal ou de ludos políticos de índole pessoal escondem. A política é uma arte muito mais nobre que o jogo de subterrâneos ou as manobras de divertimento ou revolta popular.

As grandes decisões políticas precisam de confrontar-se continuamente com os valores éticos, para não serem regidas pelos cataventos da oportunidade de chegar ao poder ou de o manter. Essa confrontação faz-se no campo teórico, ideológico, de uma política assumida, mas hoje decide-se primordialmente nas políticas traçadas dentro do mesmo espectro. O que torna o compromisso mais difícil.

Se a acção política não se confrontar com uma instância ética superior, iluminada por uma visão integral do ser humano e da sociedade, acaba por ser submetida a fins inadequados, se não ilícitos. Estamos perante um problema de consciência política e social que nunca se poderá dobrar á cegueira dos simples malabarismos de ganho e perda nas jogadas políticas. Esta lógica – de vitória em vitória – conduz a nobreza da política a uma derrota final, na distorção e aviltamento dos seus fins e meios. Se a vida dos políticos e demais vedetas é utilizada como catarse dos dramas e frustrações do povo, aos que têm do poder a concepção de serviço, urge uma referência permanente aos valores fundamentais de cada pessoa e do todo de um povo.

Governantes e governados, prós e contras, precisam elevar a fasquia das suas pretensões, na área política, para readquirir a dignidade e a autenticidade do seu empenhamento social. A política é muito mais que um jogo e a defesa da sua dignidade pertence a todos os cidadãos.

Aqui chegados, hoje pior que ontem, só nos resta esperar que a política seja uma configuração do futuro. Isto significa que nela se realiza uma peculiar luta contra o destino, contra o mundo dos factos apresentados como indiscutíveis. A política é o esforço de transformar a fatalidade em responsabilidade. Atendendo à magnitude dos problemas que enfrentamos e nos esperam e que exigem uma acção colectiva, nunca a política foi tão necessária.

José A. Roque Martins