E anda este pequeno País, dono de uma História que vai muito para além do rectângulo, completamente à deriva. Na verdade, parece mesmo que Portugal encalhou. Bateu no fundo. Meteu água por todo o lado e não há submarino que nos salve. Como pode um País intervencionado, obrigado a planos de rigor acima da média, obrigado a medidas de austeridade que sufocam os cidadãos, como pode um País assim dar-se ao luxo de passar semanas a discutir questões secundárias? Não pode. Mas é assim que andamos neste Verão. Um dia acordamos com um ministro que se demite mas que já queria sair há vários meses. No dia seguinte temos outro ministro que se demite meia hora antes de termos ministra nova. Nos dias a seguir, o folhetim promete coesão, anuncia-se um arranjinho, o ministro que deixara de ser passara a superministro e o amuo dera resultado. Mas aí o Presidente, que não o tem sido, decidiu agir e está outra vez o caldo entornado. Confesso que já não sei o que é melhor; se um governo de coligação, se um compromisso de salvação nacional, se um governo presidencial ou outra coisa qualquer. O que sei é que assim não vamos a lado nenhum. Assim, apenas perdemos tempo em jogos de política rasteira, de interesses mesquinhos, de golpes de bastidores que só interessam a uns quantos. De que serve aos milhares de desempregados, ou aos milhares que se juntam à porta das cantinas sociais, esta política de trazer por casa, esta governação a metro? De nada. Lembro-me de ouvir de Passos Coelho, quando ganhou as eleições, a promessa de que nunca iria acusar quem lá esteve antes para justificar os seus fracassos. Não demorou muito até fazê-lo. Primeiro timidamente, depois, como seria de esperar, descaradamente. Lembro-me das promessas de rigor, dos planos, dos projectos e da faminta política de chegar mais cedo do que a ‘troika’ à meta estipulada pela ‘troika’. Lembro-me da coligação oleada e coordenada que suporta este governo. Mas também me lembro do início da derrocada. Dos planos que passaram a arranjinhos desenhados em mapas e contas de sumir. E o impoluto Relvas e outras ervas daninhas que foram minando um governo legítimo até o transformar numa completa aberração da natureza política que se arrasta por aí como um farrapo com medo de eleições. Lembro-me ainda que por menos, e muito menos tempo, o presidente Jorge Sampaio usou dos seus poderes e pôs Santana Lopes a andar por aí. Até hoje. Depois das habituais traições dos candidatos feitos governantes, Portugal dispensava bem estas distracções servidas à moda de uma moderna crise política que alguns teimam em manter e que parece adormecer toda a gente: do Presidente ao primeiro-ministro, do ministro Portas (não se sabe de que Ministério) aos ministros a prazo, dos secretários de Estado aos deputados. Parece que andam todos a dormir. Todos menos as máquinas partidárias que jogam num tabuleiro à parte e fazem contas diferentes dos que precisam de contar moedas pretas para chegar ao fim do mês. E é na mão dessas estranhas mas poderosas máquinas, cada vez mais sem rosto, que os cidadãos, também eles maioritariamente adormecidos e embevecidos com tanto jogo de cintura, entregam o País. A verdade é que distraímo-nos com pouco, muito pouco, e damo-nos ao luxo de menosprezar estas questões. São coisas lá deles, dizemos nós, para justificar a nossa própria apatia, o nosso comodismo. Eu porque estou de férias, o Leitor porque se prepara para ir de férias, outro porque acha que não vale a pena, outro ainda porque, simplesmente, não acha nada e a maioria que acredita que sabe tudo e não vê um palmo à frente. E assim vamos nós, traídos e alegremente distraídos. Infelizmente, o costume.