
É uma classe em festa. Tem sempre certezas. Sobretudo do seu momento. No sector público, claro. Descobriu a fórmula de se por ao abrigo das flutuações dos humores políticos e dos resultados eleitorais, garantindo para si e para os seus um emprego de futuro muito mais estável do que o de um qualquer outro cargo público. Acima de tudo gosta de receber o poder sem ter de se maçar com eleições. Os outros que lidem com essa coisa ‘chata’ chamada democracia. Ora, sendo fruto de uma escolha superior, esta classe sente, quiçá, que não deve nada àquela espécie inferior de ‘mamíferos’ chamada contribuintes. Nem justificações, nem desculpas, nada. Nada mesmo. E isso nota-se nos pequenos gestos. Nas atitudes. Mas também na qualidade e na transparência dos actos de gestão da ‘coisa’ pública.
Ora, devo dizer que compreendo a legítima indignação de quem se sente defraudado sobre a condução dos destinos da Região e do País. Contudo, em particular nesta ilha, onde muitos não mostram interesse pelo que os políticos têm para dizer, é preocupante reparar que quase ninguém sabia que uma certa classe de gestores/administradores públicos, que estava mesmo ali atrás dos futuros eleitos, mas que não constava dos boletins eleitorais, teria futuramente o poder de decidir sobre o nosso futuro e o dos nossos filhos. Em última análise, sobre quem tem direito ou não à ajuda, logo, sobre quem vive e quem morre. E como todos sabemos, não há nada mais irrevogável na vida do que a morte.
Ver o sofrimento do outro é, em última análise, começar a viver o nosso antes da nossa hora. Quem, podendo, não daria a própria vida para salvar, por exemplo, um filho? Eu daria pela minha filha. Vê-la sofrer seria uma dor insuportável. Por isso, ao ser tornado público na Madeira um caso de alguém que está a viver um autêntico pesadelo há, naturalmente, uma comoção colectiva entre os madeirenses e nas comunidades espalhadas por esse Mundo fora, um sentimento comum de querer ajudar, cada um cumprindo o seu papel, dando o que pode, até porque um dia pode ser a nossa vez. Ou a dos nossos. Aí está uma coisa da qual é difícil escapar: o medo do sofrimento, da dor, da morte. Só quem não se sente é que não se junta à emoção de um povo como o madeirense, com muitos defeitos, é certo - começando por mim -, mas capaz dos maiores actos de generosidade para com o outro, na esperança de salvá-lo de um triste destino.
O que deve fazer, como cidadão, para evitar que um certo perfil de pessoas ascenda a lugares de decisão e que tenham poderes, julgam elas, irrevogáveis? A resposta tem de ser procurada no contexto actual. Vejo duas possibilidades. A primeira é que as pessoas têm de ter redobradas atenções quando votam porque pelos vistos não estão a eleger apenas governantes, deputados, etc., estão a passar-lhes um cheque em branco para que depois escolham toda uma classe de administradores/gestores públicos que acham que não são funcionários da população, logo não têm de se explicar a ninguém. A segunda é que, na impossibilidade actual de mudança destas pessoas, o povo tem de ser mais exigente com quem acha, claramente, que está a lidar com tolos. É preciso denunciar populismos, oportunismos, mentiras e incompetências. Isto não vai lá com porreirismos. Não se esqueça que um dia, nunca se sabe, o seu destino e o dos seus pode estar dependente destes senhores. Pense nisso. O ‘remédio’ também está nas suas mãos.