Preparam-se as eleições autárquicas que irão ocorrer em condições que se afiguram de uma gravidade inimaginável para o nosso futuro. Para já, a pré-campanha co-habita com a pobreza a atingir limites críticos para muitos milhares de famílias; com os grupos sociais dos velhos, das crianças e dos sem-abrigo, em altíssimo risco; com o desemprego e a fome em galope desenfreado; com a economia e o desenvolvimento afundando desesperadamente. Na República, mas também na Região cujos governantes, perdidos, são incompetentes para encontrar um fio de esperança, um objectivo mobilizador de vontades, uma saída aberta a pulso, mas consistente.
Longe vão as afirmações - balofas, sabia-se - de que a Madeira faria o seu caminho próprio, sem precisar de ninguém (era auto-suficiente, lembram-se?). Hoje submerge, arriscando-se a ser a fiel depositária de uma imensa massa falida de obras marítimas destruídas, de esqueletos de betão de estradas inacabadas, de túneis meios-abertos e interrompidos, de restaurantes, promenades, jardins, edifícios, parques industriais sem rentabilidade ou, mesmo, abandonados - espelhos da decrepitude que atinge todos os municípios.
Esta é, por isso, uma oportunidade para discutir e redefinir o papel das autarquias, tornando-as entidades mais solidárias e comunitárias, pilares de uma sociedade democrática.
Durante todos estes anos, mais de 30, os municípios não foram preparados para ser motores de desenvolvimento económico, social e cultural, não se organizaram urbanisticamente e acumularam desigualdades, perderam identidade e competitividade. As câmaras foram (excepções pontuais de Machico e Porto Santo) dirigidas por autarcas do PSD e são esses os responsáveis; daí o óbvio desejo da maioria de que o processo eleitoral pudesse correr sem se avaliar o resultado das governações sucessivas e as inerentes responsabilidades políticas.
Aos pedidos de Jardim para que não haja tiros nos pés (onde vai a bazófia das certezas absolutas, neste caixote de loiça partida em que se tornou o PSD), não se descortinam candidatos muito fiéis - uns parecem envergonhados e tratam de transformar o destacado símbolo laranja (sempre tão evidente em campanhas anteriores) numa miniatura a preto e branco disfarçada no grafismo do correio electrónico, enquanto outros se apressam a lembrar que as eleições não são para eleger Jardim (cruzes, credo, que frase assassina! - o candidato de Santa Cruz diz-nos ‘apenas’ que o ainda líder já se transformou em factor de enorme prejuízo).
Mas também há quem, navegando silenciosamente na sombra das divisões e das lutas internas do PSD, procure futuros aliados. Não é por isso de estranhar, no Funchal, a mal disfarçada operação de branqueamento e desculpabilização em particular da última vereação e do seu presidente, com os olhos postos em diversas ‘bancadas’: a captação dos votos dos eleitores de Albuquerque; a possível reedição da coligação que ainda governa o país, para a autarquia; a queda de Jardim, abrindo caminho a mais uma coligação - agora para o governo da Região e com Albuquerque, o ‘desejado’ presidente do PSD-M.
Para isso, nada como responsabilizar apenas o Governo Regional por tudo o que de mau - e é muito - tem acontecido no Funchal. Exemplar, mas não exemplo único, são os comentários devastadores sobre a cota 500! Mas Albuquerque também foi capitão dos arautos defensores dessa obra. Se é para criticar, então não nos esqueçamos do presidente da Câmara. Tão responsável quem rouba os figos, como quem fica de vigia.
Em altura tão difícil, a política continua dominada pelas mesmas jogadas calculistas e mesquinhas! Quando, ao contrário, esta devia ser uma oportunidade para os candidatos assumirem, sem hesitação, o compromisso de agirem e se comportarem com base num sólido e inovador Código político de ética e de conduta. Talvez isso pudesse contribuir para começar a mudar os preocupantes caminhos que nos ameaçam. Talvez.
PS - Estava este texto já pronto, quando os últimos acontecimentos vieram confirmar que para enfrentar esta ‘canalha’, é impossível abandonar as balizas da democracia e da ética.
Violante Saramago Matos