O estado da Região é um caso sério de má governação. Mas é também fruto de uma panela explosiva de interesses que se foram trocando ao longo dos anos gerando um pântano interminável e incontrolável de malfeitorias, num ambiente de fartura orçamental. Lembro-me, como se fosse hoje, no longínquo 2007 ter alertado para a ficção que representava o orçamento regional. Era uma espécie de peluche de fantasia que servia para animar o debate parlamentar mas cuja execução raramente se concretizava. Os desvios de 40% na receita eram sistemáticos e permitiam alimentar um mostro de despesa corrente e de investimento público atropelado pela vontade da “fileira da construção civil”, convenientemente liderada pelo líder parlamentar do PSD, o Senhor Jaime Ramos que, ao mesmo tempo, controlava a Associação do Sector – a ASSICOM. Nada disto é verdadeiramente novo e surpreendente. A surpresa é que todos sabemos disto. Todos, literalmente. Sabemos que houve quem tivesse um orçamento inteiro à disposição durante anos a fio para fazer o que entendesse: divida, betão, engenharias financeiras, alterar prioridades, mais betão, mais dívida. Fê-lo até ao limite do esforço do contribuinte e a ténue fronteira da irregularidade, ou mesmo ilegalidade, do enquadramento orçamental. No fim (?) estoirou a bomba nas mãos dos madeirenses. Mas o dinheiro já estava nos bolsos dos pastorinhos de Jardim. São poucos, comparando com os 250 mil habitantes que pagam as dividas e a crise. Mas os pastorinhos estão espalhados por aí e alguns ainda rezam à Quinta Vigia para que um milagre traga de volta o controlo do orçamento. O controlo do dinheiro. As luxúrias e a soberba financeira que levianamente geriam ou beneficiavam, a troco de apoio político, de silêncio, de vassalagem. Não se trata de respeito e consideração. Era um negócio: poder em troca de dinheiro. Ganhavam alguns perdia a Madeira e sofria a democracia que se envergonhava por detrás do ror de benesses que sempre apareciam para matar a cidadania ou simplesmente alimentar os pilares do poder.
É por isso que precisamos começar de novo. A Madeira precisa de outra oportunidade. Os madeirenses não podem ser contagiados pela agonia do Jardinismo. É preciso enterrar o regime e renovar a política. A mudança que prefiro não é contra alguém, é a favor dos madeirenses.
Carlos Pereira