O Brasil tem tido um clima de tensão e um grau de violência que parecia estar a deixar de ser uma das “imagens de marca” do país. Com o desenvolvimento económico e ascensão de uma verdadeira classe média, era expectável que houvesse paz social. De repente, surgiram manifestações populares para contestar os aumentos nos transportes públicos. Depois veio a repressão, violenta e desproporcional, e com isso grande parte da população passou a apoiar as manifestações, que começaram a ocorrer em todo o Brasil, abrangendo agora uma grande variedade de temas. Já não são só os aumentos dos transportes públicos que são contestados. Os gastos públicos em grandes eventos desportivos internacionais, a má qualidade dos serviços públicos e a corrupção política levaram o povo para a rua.

No “país do futebol”, a Saúde passou a ser um tema central e a população começou a exigir novos e melhores hospitais e centros de saúde, mais médicos e enfermeiros, mais medicamentos, etc. As auto-estradas, os estádios, as piscinas, as “obras de arte” e todas as “obras emblemáticas” deixaram de ser importantes para um povo mais esclarecido, que conhece melhor o mundo e que não se deixa iludir com “obras” ou palavras. Para esta população a Saúde é um dos pilares fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e não está disposta a abdicar dela em detrimento de “eventos prestigiantes”, ou “investimentos estruturantes para o futuro”, que são apenas negócios chorudos, no presente, para alguns.

A Saúde tem vários “preços” e um deles é o “preço político”. Por cada pessoa que é mal tratada, que morre desnecessariamente ou fica com sequelas para a vida, existem dezenas de pessoas que ficam a pensar que poderia acontecer-lhes o mesmo. A repetição destas histórias acaba por provocar a revolta geral, que tanto bate na rua, como acaba com carreiras políticas nas urnas. Aprendamos todos com o Brasil.

Duarte Nuno Dória