Na semana passada a palavra “irrevogável” ganhou um novo significado no léxico político português. Agora “irrevogável” significa a inquebrantável vontade de alterar uma decisão em nome do superior interesse nacional e da sacrossanta estabilidade política. Ou para os mais cínicos, a necessidade de manter o poder a todo o custo. Considerando-se como custos colaterais aceitáveis a perca de milhões de euros para a economia nacional, o pôr em causa o sacrifício de milhões de portugueses aos longos dos dois últimos anos, e, não menos importante, a recémrecuperada credibilidade externa do Estado português. De uma semana de “loucos” – demissão de dois Ministros de Estado, uma tomada de posse “felliniana”, sucessivas reuniões partidárias entre “comadres desavindas”, e a oposição do “quanto pior melhor” – resultou um novo acordo entre o PSD e o CDS-PP que refundou a maioria governamental. Anuncia-se agora uma maioria mais coesa e um governo mais funcional. No entanto, a questão que se coloca é de saber se estamos perante um melhor governo e que melhor servirá os interesses do país? Penso que não! E porque não? Primeiro, porque estamos perante um governo liderado por dois políticos que reiteradamente deram provas de desconfiança mútua e que se entendem apenas sob pressão e possibilidade de serem apeados do poder. Em segundo lugar, porque se verificou uma clara perda de autoridade do governo decorrente de uma negociação forçada entre dois aliados desavindos, quase em praça pública, que a tal foram forçados pelo uso da “arma atómica”. Parceiros sociais, troika e parceiros europeus desconfiam da coesão interna do governo. Terceiro, o agravamento do fosso entre a classe política e a sociedade civil, que não aceita as manobras de políticos em descrédito. De alguma forma, temos um governo unido e encurralado pelo medo perante uma situação financeira, económica e político-social explosiva.
João Paulo Beja