Já há tempo que digo que o madeirense não dá valor ao esforço de centenas de “voluntários” que colaboram nas organizações de eventos desportivos nesta Região. A Taça da Europa da provas combinadas, mesmo sendo a 2ª Liga, reunia alguns atletas de qualidade de vários países europeus que, juntamente com Portugal, discute o acesso à 1ª Liga europeia. No sábado e domingo, o que se viu nas bancadas do Complexo desportivo da R.Brava foi desolador em termos de espetadores. Mesmo sem pagar, parece que muito pouca gente se interessou por atletismo de qualidade, preferindo talvez a praia ou um passeio na serra. Sabemos que a modalidade consegue aglomerar milhares na Volta à Cidade, na Corrida das Mulheres ou na Meia-maratona, para além de centenas todos os fins de semana nas corridas de estrada pelas diversas freguesias da ilha. Não é compreensível este alheamento a uma competição que até decorre num estádio onde podem estar comodamente sentados a assistir. Sem pagar, mesmo sabendo que não são Jogos Olímpicos nem campeonatos do Mundo, o madeirense não ligou quase nada ao evento internacional. Divulgada em força através da comunicação social, esta Taça da Europa não teve a atenção que merecia por parte dos adeptos madeirenses. O esforço dos 50 voluntários, dos 50 juízes, das quase três dezenas de homens e mulheres que fizeram parte da organização, merecia mais um pouco destas gentes que pagam para ver maus jogos de futebol ou que pagam para ouvir jazz sem gostarem. Mais, a seleção nacional deverá subir à 1ª Liga, previsão que, a confirmar-se, poderá trazer nova organização à Madeira. Continuo a achar que o espetador ilhéu talvez não mereça o esforço porque, simplesmente, não corresponde. Depois ficam todos orgulhosos porque a Madeira tem meia dúzia de olímpicos, tem campeões europeus e mundiais. O esforço financeiro que a Região faz para que isso aconteça é enorme, apesar da redução declarada dos apoios. E quando falo da Região, apesar de ser do governo o apoio oficial, a contribuição dos pais é enorme. Há modalidades em que essa participação atinge verbas não comportáveis com as dificuldades que a austeridade nos impõe. Se no futebol havia dinheiro e equipamento desportivo já nos iniciados, há modalidades em que são os pais a suportar praticamente todas as aquisições dos atletas. E a suportar viagens ou estadias nas competições nacionais para as quais os filhos ficaram apurados. Choca-me, por isso, o alheamento desses mesmos pais a competições de nível internacional organizadas na Madeira, quando são capazes de gastar tanto na formação desportiva dos filhos e não se dignam assistir a eventos destes, até da modalidade que eles praticam. E para muitos não há falta de tempo, porque ora estão no arraial, na praia ou na rave na Calheta. Há tempo para cultura ou desporto apenas quando dá na vista ou é fino lá estar. Não há é cultura para valorizar o que de qualidade se pode aproveitar. Nem há cultura para reconhecer isso, ou seja lá o que for. Os madeirenses são assim mesmo. Também não se manifestam, não criticam, não protestam. A maior parte não faz greve. E continuam a votar nestes políticos que lhes tiram os direitos que os antepassados foram conquistando. Queixam-se, choram e ramelam, mas na hora do aperto ficam sentados à volta da “loirinha”, todos com a boca cheia de tremoços e amendoim, sem espaço para uma palavra que ajude na luta. Pois, na hora da conta, vão à casa de banho. Um dia, não há casas de banho para tantas contas.
Paulo Gomes