Que me perdoem os puristas, mas vou recorrer ao inglês. Aprendi o conceito assim, com a Carla Machado, que era professora na Universidade do Minho: “outing” – revelar ou ameaçar revelar a orientação sexual de um gay, de uma lésbica ou de um bissexual sem o seu consentimento. A palavra veio a público em 1990. William A. Henry III publicou na revista Time o artigo “Forcing Gays Out of the Closet”, traduzível por “Forçar os gays a sair do armário”. Ouvi-a só em 2007, a propósito de um estudo que a Carla Machado co-assinava com a Laura Gil Costa e a Rute Antunes. A violência entre casais homossexuais não era assunto. A comunidade homossexual temia fortalecer estereótipos negativos. E a comunidade académica não parecia interessada em desafiar o pressuposto feminista de que a violência no contexto amoroso deriva da desigualdade de género. Estas vítimas de violência, como as heterossexuais, sentiam-se apartadas, frágeis, presas à relação. Com um extra: o preconceito. O “outing” surgia como uma forma específica de abuso. Aparecia na sequência de uma tentativa de terminar um romance. Os efeitos podiam ser devastadores – desemprego, abandono de familiares e amigos, perda da guarda de um filho. Tudo isto a propósito do crime de extorsão de que o padre de São Vicente, o meu São Vicente, foi vítima. Ao que me foi dado perceber, conheceu um professor de dança numas férias em Cuba. Houve namoro clandestino. Quando o padre, nas palavras do Ministério Público, “quis voltar a cumprir, com seriedade, os votos do seu sacerdócio”, o largado passou a exigir-lhe dinheiro. Ou lhe pagava ou ele contaria tudo à hierarquia católica, aos paroquianos, aos media regionais. Uma professora de dança não teria tanto poder. Acaso se preocupam os media com as amantes – adultas – dos padres? Acaso os paroquianos alguma vez se incomodaram com as “amigas” dos seus párocos? Que faz a hierarquia católica com um sacerdote que engraça com uma mulher? O rapaz conseguiu extorquir 44 mil euros ao padre. Que suplício não terá ele passado até chegar ao ponto de mandar tudo às urtigas e apresentar queixa? Agora, que o assunto se tornou público, não falta quem o esconjure, quem o blasfeme. Coberto de vergonha, ter-se-á fechado, num apartamento, bem longe da vista de quem está tão disposto a atirar-lhe a primeira pedra e muitas outras. Não sei o que pregava o padre, nem tal interessa para o caso. Bem pregava frei Tomás, não era? Também não colhe o desgosto pelo desrespeito pelo voto de castidade, esse disparate instituído. Quem se casa não jura fidelidade? E alguém repudia um amigo por ter uma relação extraconjugal heterossexual? Cheira a homofobia. E onde diabo estão as organizações de defesa dos direitos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgéneros? Este país precisa de uma marcha pelo direito ao afecto. Ou de 20.

Ana Cristina Pereira Jornalista do Público