Em plena II Guerra Mundial (1943), durante a ditadura salazarista, numa região pouco desenvolvida e ultraperiférica, a Madeira, surgiu uma instituição de grande relevo para a cultura da Ilha. Fruto da iniciativa da elite insular, madeirenses e comunidade estrangeira a residir na região, com predominância para a britânica, a Sociedade de Concertos da Madeira foi a responsável pelo desenvolvimento das artes até ao 25 de Abril de 1974. Três objectivos nortearam os seus membros fundadores: 1- promover concertos públicos regulares na área da música erudita; 2- fundar uma escola de música de referência; 3-constituir uma orquestra de câmara, que poderia evoluir para outros patamares. Todos os objectivos foram concretizados. Um verdadeiro movimento empreendedor colocaria a Madeira no mapa nacional e internacional. A parceria com o Conservatório Nacional de Lisboa trouxe o corpo docente para a Academia de Música da Madeira, aberta em 1946. O estabelecimento de contactos com outras entidades congéneres, colocou o Funchal em rede com a Europa (Londres, Siena, Munique) a partir de 1959 (Festival de Música da Madeira). O sonho, demoraria um pouco mais para a constituição da orquestra (1964), mas tornou-se possível, com a ajuda da Academia, dos professores e alunos… de forma entusiasta, voluntariosa e graciosa. Julgaram muitos deles, alguns ainda estão bem vivos, que mais à frente a orquestra teria o seu quadro de músicos transformando-se numa entidade independente e a tempo inteiro!… Em 2013, discute-se o futuro de uma orquestra que entretanto parou de actuar. Será que a proposta a apresentar incluirá um regresso às origens, e à forma voluntariosa? É inadiável pelo contrário, precaver o futuro dos jovens que concluíram, ou estão a concluir, cursos superiores e que precisam de desenvolver uma carreira e não um ‘‘part time ‘’ na música. Já são várias as orquestras que lá fora empregam os nossos músicos. A alternativa, aqui, não existe. Num tempo de crise, como o que vivemos, há que repensar os valores e propósitos da fundação da Sociedade de Concertos da Madeira e dar um novo rumo à música, com outra política.
Vítor Sardinha Músico