O que se passa com os portugueses?, pergunto-me. E não falo da crise, nem dos problemas económicos e sociais que dela advêm. Mas de características intrínsecas que nos distinguem. Umas das coisas que os forasteiros mais denotam quando nos visitam é a amabilidade, afabilidade, a simpatia. O bem receber. Mas terá a crise tornado este povo melancólico, do fado, um povo mesquinho e invejoso?
A questão surge-me no país das redes sociais, da Internet, dos fóruns e dos espaços de comentários. Esta janela que se abriu ao cidadão e que me parece um baluarte da cidadania activa e da participação têm-me mostrado, ultimamente, não um povo atento, mas sedento de guerra e sangue. De posições extremadas. De total intolerância com o outro, que reage sem antes perceber do que se trata, que acusa, aponta, moraliza.
E antes que me crucifiquem por atentar contra a liberdade de expressão, que é o palco onde me movo, explico: Não vejo mal nenhum em que as pessoas se exprimam livremente, mas fico francamente incomodada com as interpretações precipitadas e, mais do que isso, com os comentários raivosos, a espumar ódios, a tudo e mais alguma coisa, escudados muitas vezes no anonimato. Ao ler muito do que por aí se escreve, como se reage, dá vontade de mandar o país para o divan. Mas será este país das redes sociais, o Portugal real? Ou é apenas uma franja de gente amargurada que descarrega frustrações desta forma, atacando os outros? E de onde veio esta amargura? Já existia ou resulta das degradações sociais evidentes? Do desemprego, das necessidades individuais deitadas na lama.
Ora, é claro que se pode dizer que há pessoas sob escrutínio permanente, como os políticos, e que não se podem queixar do que por aí se diz a seu respeito. Pois, é certo. Mas há muitas formas de se exprimir opiniões sobre o outro. E há umas que ganham cada vez mais palco e que metem medo. A verdade é que ultimamente tudo se critica, se arrasa por dá cá esta palha, sem qualquer pudor. Um bloguer que fala dos filhos e a partir dali se conclui logo que se trata de uma péssima mãe ou pai, ou alguém que partilha a última viagem que fez e aparecem logo alguns a apontar o dedo aos despesismo, em altura de crise. Ou um jantar de madeirenses com deputados na Assembleia da República, pago por cada participante, que merece um chorrilho de críticas, a maior parte infundadas. Estará todo o país com três pedras na mão à espera que passe alguém para as atirar?
Há o outro lado: Gente que se mobiliza nas redes para ajudar quem precisa. Animais que ganham novos donos, solidariedade transformada em coisas reais, como novos dadores de medula. Crianças ajudadas. Pessoas a fazer coisas boas, mesmo que apareçam outros tantos a acusá-los de protagonismo com a desgraça alheia. Não sei se o que se lê é reflexo de um país, mas preocupa-me que possa passar das redes para a vida real. Esta fase negra da nossa História pode não estar a mudar apenas as nossas condições de vida, mas a nossa identidade. E sem isso não ficamos pobres, mas miseráveis.