
Esta semana soubemos que mergulhar com tubarões é o que está a dar. A nova atracção tem registado crescimentos anuais na ordem dos 40% nos Açores e está a alavancar (termo que está tão em moda nesta eterna estação da crise) a actividade marítimo-turística do arquipélago vizinho. Nós por cá, bem que poderíamos enveredar pelo mesmo caminho, agora que parece que descobrimos os cardumes. Que debaixo de água também há vida, recursos marinhos e biodiversidade dignos de serem preservados, investigados e explorados de forma sustentável. Depois de, durante anos a fio, termos transformado o litoral no balde do lixo dos excrementos das grandes obras públicas eleitoralistas, sem tempo para encontrar vazadouros nos aterros legais, sob o pretexto de que o mar salgado teria capacidade para regenerar a lama oleosa das lavagens das máquinas. E os peixes, crustáceos e micro-organismos que existiam na orla costeira, foram condenados a ter que incinerar, qual Meia Serra marítima, o que o Homem não queria enterrar.
Foi preciso faltar dinheiro para tapar buracos que se tonaram crateras (pelas quais teremos de pagar mais ainda), para que tais abomináveis seres do ‘habitat’ político reconhecessem valor ao mar e a tudo aquilo que essa imensa fonte de vida nos propicia, do surf à investigação marinha e mineral. Foi, infelizmente, saídos deste contexto de pobreza intelectual viciada na subsidiodependência dos euros comunitários e estruturais, que somos agora timidamente convidados a reflectir, com e sem os "pés de chinelo", sobre as propostas estratégicas que pretendemos para o mar. Propostas essas que, ao fim ao cabo, definirão responsabilidades, metas e objectivos nos quais poderemos afirmar esse mar que torna Portugal num gigante com a 3.ª maior Zona Económica Exclusiva da Europa.
Não sei se serão das toneladas de lama deitadas ao mar, mas a verdade é que no que concerne a tubarões, não abundam muitos por estes lados. Na verdade eles estão todos cá em terra, com idêntico instinto predador. Ainda ontem, um dos vários tubarão-de-sete-guelras (Heptranchias perlo) que por aqui habitam e que têm escapado à jaula com um fôlego ímpar, teve a distinta lata de alegar em tribunal que não tinha consciência da ilegalidade dos pagamentos ao tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) que nos andou a comer este tempo todo. Nós não nos apercebemos e, pelos vistos, quem autorizou também não. Foi mais um de imensos excertos que nos vamos habituando a ouvir e que demonstram que não há rede que capture estes predadores. Que estão protegidos por uma rede maior - de influências, de ameaça e de corrupção que blindam a verdade entre cortinas de ferro e fazem da justiça na Madeira uma cadeia alimentar de invertebrados, de presas fáceis para os nossos tubarão-boca-grande (Megachasma pelágios) de águas profundas.