O Martin Scorcese fala de Nova Iorque, de uma cidade que era duas. É que no Século XX, os bairros proliferavam e cresciam, e eram ao mesmo tempo replicados em Hollywood. Cada bairro sugeria histórias, e essas histórias, para que fossem filmadas, implicavam a construção de cenários, que embora não duplicassem fielmente a arquitectura, sintetizavam-na, criando elementos que faziam com que se dissesse, ‘isto é Brooklyn, isto é New Jersey’. O resultado foi uma cidade que ao mesmo tempo que crescia, construía a sua narrativa. Cidadãos com a capacidade de se olharem de fora para dentro, como personagens de uma história que se passa na sua cidade. Vem isto a propósito da fantástica exposição de Max Römer, na Casa das Mudas. O Funchal de Römer é o basalto que não reflecte a luz amarela mediterrânica. É o roxo e verde das buganvílias sobre o preto e branco. São as árvores mais altas que os edifícios, fazendo com que muito do enquadramento seja céu azul. É o Funchal cosmopolita, com senhoras à beira da piscina, o Funchal comercial dos hotéis, do vinho e dos casinos. Estamos à beira de eleições autárquicas e o Funchal está exactamente agora em risco de acabar. Cercado por todos os lados por betão e mau gosto, o qualificativo ‘cidade’ ameaça tornar-se apenas um formalismo, como o é em Machico, na Amadora ou em Portimão. O comércio continua a fechar. A livre concorrência não existe: ou sobrevivem as lojas com rendas antigas e produtos que ninguém quer, ou aparecem franchisings. Não existe comércio à escala da cidade, com empresários e criadores à escala da cidade. Os bazares descaracterizados proliferam a leste, e junto ao Marina Shopping uma nova cidade feia aumenta. De vez em quando chegam estrangeiros às centenas vindos dos barcos, mas não têm onde gastar dinheiro. A Câmara do Funchal há anos que leva a cabo um programa anual de animação da baixa, e muito bem. Da feira das oportunidades à semana do vinho, todos esses eventos conseguem manter a cidade em movimento ao longo de mais ou menos todo o ano. Mas não estará na altura de atacar o problema também na raiz? É que o que a CMF se vê obrigada a fazer é inventar um cidade que não existe, é replicar lojas em barracas, e palcos em estrados de madeira. A única solução é deitar tudo cá para fora; ser pop. Encher a Cidade com o Römer, com o espólio dos Vicentes, com a produção literária da DRAC e do CEHA, com as sombras da Lourdes de Castro. Vender bolos bons, espremer fruta e vender sumos. Porque, como diz Oscar Wilde, é a vida que imita a arte. É apresentar espectáculos em vez de récitas. É pôr quem percebe da Cidade a falar e a agir, o Paulo David, o Rui Campos Matos, o André Correia, o senhor da barraca da cana de açúcar, toda a gente que nos lembrarmos. Graças à sua orografia o Funchal é a cidade da distância física e da proximidade visual. Dos telhados. Das torres que não se encavalitam. É também a sua própria destruição: A Rua da Praia de onde não se vê o mar, o Jardim Municipal que não é mais que um jardim global. Temos de nos sentir personagens da nossa cidade. Ou a cidade acaba. Uma sugestão de fim de semana: Entrem no bairro dos Arrifes: Caminhos irregulares, casas rasteiras e torres, cães que ladram, velhinhas de chinelas, o Hotel Monte Carlo, as quintas esquecidas, a vertiginosa vista sobre a baixa quando menos se espera, o moderno atelier do Hugo Santos... está tudo lá. Bom passeio!

Filipe Ferraz