Li com agrado geral a Opinião de Pedro Fontes em “Madeira vista de fora” pelo traço rápido que traça sobre a vivência do Porto e por sentir que neste traço está um apreço, quase um carinho, pelo Porto e as suas gentes. Como Portuense de “gema” que aprendeu a gostar da Madeira e dos seus filhos, não pude deixar de me sentir gratificado que um Madeirense sentisse desta forma a “minha terra”. Não posso, contudo, de aqui e ali sentir o Porto traçado com menos precisão histórica, etnográfica, urbanística e sociocultural. Desde logo quando Pedro Fontes considera que não pode o Porto ainda ser considerado uma grande cidade – e aqui não posso estar em maior desacordo. De facto , e apesar de estar ciente que esta classificação de “grande cidade” pode envolver diferentes vertentes ( espaço ? população ? cosmopolitismo ? riqueza ? monumentalidade ? cultura ? história ? tudo isto ou um pouco de tudo isto ? ) tenho para mim que uma qualificação deste tipo, se bem que marcada e moldada pelo tempo histórico em que é definida, deverá ter em conta o ângulo, o prisma , pelos quais se qualifica. E assim sendo, para mim, o Porto é uma grande cidade pelo seu passado e pelo seu presente, em que os valores que servem de qualificação (ângulo e prisma) são os de expressão da sua qualidade cultural, da vanguarda dos seus projectos, do proselitismo da sua população (das suas gentes) , dos valores que enuncia, apesar da crise económica, endémica, do País onde se insere, do esquecimento ancestral a que a Região a que pertence tem sido votada pelos que regem os destinos da Nação, da histórica recusa ao cosmopolitismo serôdio e mimético. Na verdade uma cidade que tem a História milenar que o Porto tem, que serviu, bastas vezes, de motor económico do País, que tem o acervo cultural e a riqueza de património secular, que tem, nos nossos dias, uma Universidade prestigiada, um Museu de Serralves, uma Casa da Música, uma cidade antiga como Património Mundial, uma elite de Arquitectos, de Escritores, de Engenheiros, de Músicos, de Médicos, de Institutos de Ciência, uma juventude pujante apesar do desemprego e da falta de perspectivas de Portugal, que pulsa Vida no meio da desgraça e da pobreza que assola este rectângulo Peninsular e a própria Península, que tem com o seu nome um dos mais famosos Vinhos do Mundo, que é porta de saída (e de chegada) dum Douro cada vez mais conhecido e reconhecido, que “deu nome a Portugal” , que tem uma impressiva imagem de marca no seu Clube mais representativo, e que associa o nome da cidade ao seu próprio nome, ganhador e expansionista, uma identidade forte das suas gentes no seu sotaque, no seu calão, nas suas origens, SÒ pode ser uma Grande Cidade ! Não lhe peçam para ser Paris, ou Londres, ou Madrid, ou Lisboa, como não o peçam a Lyon, a Manchester ou a Barcelona, que apesar disso não deixam de ser Grandes Cidades. Depois tenho dúvidas de que o Porto tenha, hoje, grandes políticos, ou melhor : os que conhecemos como políticos actuantes ! E creio que , isso, é um dos factores que levam a que haja, hoje, uma visão de fatalidade no Porto : nos últimos cem anos assistimos, ciclicamente, a diferentes levas de políticos, alguns de grande qualidade, que se esqueciam rapidamente da Cidade e da Região logo que atravessavam as pontes do rio Douro a caminho do Terreiro do Paço ! O meu desacordo, também, para alguma imprecisão na caracterização da urbe : o Porto nunca foi uma cidade de “bairros”, como, por exemplo, Lisboa com os seus bairros de Alfama, Mouraria, Graça. Etc. A palavra “bairro” apenas surge no léxico do Porto inventada pelo Estado Novo, denominando, primeiro, aglomerados sócio-profissionais e da pequena burguesia, e, depois, como marginalização das populações mais desfavorecidas em bairros sociais que visavam substituir as “ilhas”. A denominação que noutros lugares se expressava com “bairro” era, no Porto, mais vasta (geograficamente) e mais envolvente ( populacionalmente) : era, e é, a “Zona” . zona do Ameal, das Antas, da Boavista, de Campanhã, do Carvalhido, da Carvalhosa, da Foz, do Pinheiro Manso, etc. Daí nunca ter havido uma “economia” de bairro, nem tão pouco uma tipificação da mercearia, da tasca, do pomar, etc. de bairro. Era, no passado, mais de “rua” , de “largo”, e é, hoje e já há bastante, “de zona” como é emblemática, na actualidade, a nova onda da noite “nos Clérigos” (zona) ou Galeria de Paris (rua). Eu sou da “Carvalhosa” pois aí era o meu centro do mundo infanto-juvenil : estava aí o meu Liceu ( o velho D. Manuel II / Rodrigues de Freitas, olhando de frente lá em cima o “Carolina” das “miúdas” dos nossos sonhos), como já estivera a minha Escola Primária ( a 75 ) , os meus Cafés ( o Diu, o Guanabara ) e vivia na Torrinha, rua emblemática porque nela se conjugavam uma vetusta fábrica ( a dos Marinhos) e uma grande serração que davam emprego a um sem número de famílias que viviam nas suas típicas ilhas “do Armando” e “ da Fome” ( nome sintomático) , ao lado das Casas de Pasto, do Carvoeiro, do Padeiro, e do Pomar. E lá ao fundo da Rua a Escola do Infante , escola Industrial de grande tradição, paredes meias com a Maternidade , com o Centro Universitário na Boa Hora, com a Rua do Rosário das Casas de Pasto e boa, excelente, comida. Na Carvalhosa estava também a Igreja da freguesia (Cedofeita), a Faculdade de Farmácia, e a dois passos, para um lado a Rotunda da Boavista e o Mercado do Bom Sucesso, e, para o outro, a Faculdade de Engenharia e a Cedofeita e Carlos Alberto ( o largo e o cinema dos “caubois” e dos “artistas” a 2$50), e um pouco mais abaixo o Hospital de Santo António. Lugares e instituições de referência que nos orgulhavam e que honrávamos sendo da “Carvalhosa”. Quanto ao resto apenas mais um pequeno apontamento : o palavrão no Porto não era sinónimo de insulto deliberado, de provocação verbal ( embora também o pudesse ser quando enquadrado numa disputa pessoal) ; era, isso sim, uma espécie de bengala linguística, de travessão não literário, de generalização vaga de qualquer coisa ou pessoa. Mas no trato comercial ( como o desse vendedor de jornal, ou quiosque) não era usado para o Cliente – e lamento se hoje estamos assim. De facto o submundo da droga, e das alucinações, veio dar ao palavrão do Porto – e até já na Madeira – uma expressão mais grosseira, feia, e desabrida, que nada tem a ver com a original que, apesar disso e felizmente, ainda se manifesta. Finalmente aconselho-o vivamente a ver um Programa do Porto Canal, chamado Caminhos da História , com a assinatura de um excelente comunicador e historiador que é Joel Cleto, onde poderá ver muito sobre a grande cidade do Porto. E se tiver oportunidade, ponha uns calcantes, dê corda aos barbantes e vá atrás dele. Mas se preferir ficar esparramado, flitra um fino , estique o esqueleto e abra os olhinhos porque o morcão sabe largo. Carago Pedro , o Porto é uma Naçããoe e atão não habia de ser uma gande cidade ?

Manuel Neves Saraiva