Não é dia, não é noite. É um tempo muito diferente, é um ténue ponto de tangência entre minutos e a eternidade, entre o belo e o pavor. É o coração do mundo que se mostra desnudo - um coração obscuro cingido de glória. E há também uma dulcíssima emoção nos olhos dos homens erguidos para o céu. Todas as crianças estão reunidas no pátio da escola. Torcem o pescoço a fim de verem melhor esta fantasia celeste que talvez nunca mais tenham ensejo de rever no resto das suas vidas. Retêm a respiração. Os seus astros familiares estão a realizar um prodígio. Anoitece em pleno dia, a Lua roubou a luz ao Sol. Eles olham, olham sem descanso, gostariam que o milagre durasse, que a estranha visão se quedasse no céu. Mas tudo é tão rápido; já a Lua desliza, resvala e desaparece no dia recobrado. Na sua fuga, leva consigo a noite e as estrelas, e a magia tão linda que ela instaurara momentaneamente no céu. Só permanece o Sol. Uma criança mantém-se muda, de fronte erguida para o Sol. Um sorriso radioso atarda-se-lhe nos lábios. A seu lado está uma rapariguinha. Os olhos dela são grandes e negros - tão grandes que o brilho confere ao seu rosto um ar de espanto infinito. A Lua sumiu-se, mas as trevas prateadas em que ela envolveu a Terra durante alguns minutos continuam a ofuscar os olhos destas duas crianças; ondeiam sob as suas pálpebras, fremem por sob as suas epidermes e rodopiam nos seus corações.

Têm os olhos em fresta, têm o peito cheio de alegria. O mundo, para eles, ainda é encantamento.

O mundo constitui surpresa para eles, a vida abre-se-lhes como um jogo. Um grande jogo de aventuras cujas regras começam a decifrar. Os dias da sua infância são leves e alegres. Bolas de sabão sopradas na luz. Ele tem onze anos, cabelo em remoinho, cor de cobre, um rosto salpicado de sardas, olhos cor de avelã. É míope, usa óculos com ares de tartaruga e por detrás dos óculos agita incessantemente as pálpebras. É que sente uma imensa curiosidade por todas as coisas deste mundo, tal é a sua avidez de ver o visível e a paixão que nutre sobretudo pelas geografias do céu. Este fervor pelo céu apoderou-se dele a partir da mais tenra idade; desde logo as estrelas, os astros, os planetas longínquos seduziram o seu olhar. Aliás, gosta de frisar bem que nasceu no mais escuro de uma noite de Verão, sob um céu sem lua nem nevoeiro. Um céu puro e constelado. Nasceu à hora em que culmina Vega, sob o esplendor da Lira. E a Lira, ao que parece, emitiu nessa noite um som muito claro que vibrou até nas pálpebras do menino recém-nascido e que, desde então, nunca mais pairou de se guindar ao agudo no coração enfeitado do rapaz.

O seu coração, o seu olhar, o seu pensamento, o seu desejo - todo o seu ser é requerido por este alhures tão próximo que em cada noite cintila mesmo por cima dele. Lá no alto, no infinito. Lá no alto, o céu a perder de vista e de maravilhamento. Sempre o céu, de dia e de noite, de alba e de crepúsculo. Vasto o céu, ora rosado, ora azul, ora vermelho-alaranjado ou purpurino-violácio, ora simples cor de ardósia, de metal, de azeviche. Fecundo o céu, com os seus cachos de astros, com as suas flores de lua que se abrem e retraem, com todos os seus sóis em forma de cardos, de enormes sorvas carmesins, de bolas de papilos esmaecidos. Profundo o céu, com as suas galáxias flutuando em seus confins e que ainda se afastam para além destas extremas até derivarem no ignoto mais escancarado. Ligeiro o céu, e doce, com os seus leites de estrelas, com as suas nuvens, as suas brumas e as suas neves, os seus arco-íris. Violento outrossim o céu, com os seus ventos, os seus coriscos, os seus arremessos de meteoros. É um livro, o céu, um grande livro de imagens que são forças e velocidades. Um livro de páginas vivas que se enrolam, se retorcem, se evolam, se rasgam e reaparecem, todas as vezes as mesmas e no entanto novas, É um texto sempre em vias de se reescrever, de se continuar e de se ornar de iluminuras. É o álbum preferido do menino. Mas há tantas e tantas páginas que ele ainda não leu, sobretudo tantas imagens que não viu. O álbum é infinito e difícil de decifrar. « Quando for grande, proclama, hei-de ser astrónomo.» E acredita na sua vocação, sem sombra de dúvida. Já se prepara assim para realizar este belo sonho; o pequeno astrólata sabe que terá de trabalhar muito para se tornar um verdadeiro sábio. Cheio de afã e de zelo, devora todos os artigos e obras de astronomia que consegue desencantar. O seu livro de cabeceira é um atlas celeste, as paredes do seu quarto estão atapetadas de cartazes e de fotografias do céu recortadas de revistas. Até colou uma carta celeste no tecto, por cima da cama, e o seu candeeiro de leitura é um enorme globo celeste que difunde uma luz azulada. Todas as noites adormece no recôncavo de um firmamento artificial e tem sonhos que polvilham de sol, que cintilam de estrelas ou reluzem de auroras bo-reai. Em devaneio, gravita em torno dos planetas, voa no vento solar, atravessa a Via Láctea. Quando fez doze anos, recebeu como prenda um magnífico bínóculo. Foi para ele, a criança míope enamorada das estrelas, um duplo milagre. Davam-lhe olhos para ver o longe - para ver em grande. Ofereciam-lhe olhos mágicos, capazes de verem o invisível, de contemplarem muito para lá da terra, de se esgueirarem por entre os bastidores do mundo. No papel de lustro, azul-eléctrico, que envolvia o seu presente de aniversário, a mãe escrevera « Para o nosso Principezinho das Estrelas ». Agora tinha o seu reino - o céu. Precisava de um palácio. Inventou-o. Confeccionou um observatório no sotão contendo tudo o que precisava. No decurso das suas observações, toma notas e regista meditações, desenha gráficos, garatuja esboços, escreve impressões. No caderno de capa amarela, lança a esmo as notas e os esboços; no caderno de capa redige com aplicação. Ao pegar no caderno amarelo, sente-se um aprendiz de astrónomo; por outro lado, o caderno azul permite-lhe expandir o seu lirismo astrólatra Mas o principezinho das estrelas sonha dilatar o seu reino. O desejo dele está agora inteiramente dirigido para os telescópios. No dia em que possuir um, será deveras um rei. Mesmo assim, o seu material enriqueceu-se; ao fazer onze anos, recebeu uma máquina fotográfica. Porfia agora em obter imagens das estrelas, e sobretudo da Lua. Uma vez mais, os seus olhos conheceram um milagre; o seu olhar faz-se agora acompanhar de uma memória que perdura, tangível. Uma memória a preto e branco, recortada em pequenos rectângulos de papel de lustro, e que cresce obstinadamente de mês em mês. Ele que ao longo do dia padece de uma vista fraca, revela-se dotado de uma visão fabulosa nas noites de vigília que é autorizado a passar no seu palácio-observatório. Goza então de um olhar de alto voo, preciso e atento, de um olhar que, além do mais, grava sinais e dá assim testemunho dos seus pacientes deslumbramentos. A Gata Borralheira passava o dia vestida de andranjos e calçando tamancos, mas rodopiava à noite em finos de pele de esquilo, envergando. O nosso menino sente-se um bocadinho irmão da Gata Borralheira; as sua noites de baile desenrolam-se no sotão celeste ; dança com a Lua e as estrelas, paramentado de um olhar soberano. Durante estas poucas horas, esquece a miopia diurna, mune-se de olhos de glória. E, assim , as três palavras de encantamento: « Era uma vez…» .

Renata Camacho