Raul da Silva No passado dia 10 de Junho, o país comemorou mais um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Em Elvas, no seu discurso, o Presidente da República abordou longamente o problema da agricultura nacional e o povo, na sua maioria, apupou os políticos e protestou contra o Governo, a Troika e a austeridade. Curiosamente, há 10 séculos atrás, quando o actual território português era composto por taifas inseridas no Gharb Al Andalus, Ibn Muqana, poeta árabe, desencantado com as falsidades palacianas de Sevilha e Granada, decidiu regressar a Alcabideche, de onde era natural, para se dedicar à terra. Na sua poesia, referenciou a forma de viver a vida rural em Alcabideche mas, já então, se queixava de que, apesar da sua terra ser bastante rica, os cobradores de impostos não o deixavam em paz, chegando a transformar a opulência em pobreza. Al Mutamid, um dos poetas mais importantes do Al Andalus, nascido em Beja, governador de Silves e Rei de Sevilha, acorrentado no seu cativeiro em Aghmat, escreveu o seguinte poema: Grilheta, não sabes que já sou teu ? Porque és dura e sem piedade ? Se esse ferro desse sangue já bebeu E a minha própria carne já morde Não me roas os ossos por maldade. Olhando para as grilhetas que o acorrentavam, Al Mutamid terá, tido uma visão das grilhetas da austeridade que, dez séculos depois, vão bebendo o sangue e comendo a carne do povo português . Ibn Mucana e Al Mutamid levam-nos a concluir que Portugal é um país que antes de ser já era.