Sai daquela sala da Acreditar com aquilo que a minha avó chamava de ‘alma num maranho’. Há dias em que o que fazemos ganha um sentido extraordinário, mas também retira o chão que pisamos. E aquele foi um desses dias. Não me saía da cabeça uma mensagem que recebi num workshop sobre doação de órgãos na Comissão Europeia, no ano passado, onde se insistiu que a mensagem de que se pode salvar vidas sendo doador deve ser passada sem personalizações, ou seja, sem aludir a casos concretos.
Fez sentido na altura, como continua a fazer agora. Mas a verdade é que somos humanos. E o sofrimento com rosto tem um peso maior do que o sofrimento abstracto. Somos selectivos na absorção do sofrimento alheio ou não tínhamos capacidade para aguentar. É isso que faz com que um massacre num escola dos Estados Unidos tenha mais impacte em nós do que os massacres diários de crianças na Síria. O que é que isso diz de nós? Que somos maus? Acho que mostra apenas que somos pessoas.
E por isso quando ouvi a mãe da Cindia, a menina da Boaventura que está há nove meses em tratamentos contra uma leucemia grave em Lisboa, dizer que gostaria de ver uma campanha de doação de medula pela filha, a informação que tão meticulosamente tinha feito por absorver em Bruxelas, caiu por terra. Como cai quase tudo perante o sofrimento (e fé) de uma mãe.
Uma campanha pela Cindia poderá não encontrar o dador de medula de que ela tanto precisa para viver, mas, por certo, vai aumentar a probabilidade de outras tantas crianças que precisam encontrarem soluções compatíveis. E à família da Cindia mostrará que não estão sozinhos e que há gente disponível a lutar, com eles, pela sua menina.
Somos humanos, sem capacidade para lidar com todo o sofrimento do Mundo, mas com capacidade para ajudar a amenizar este.