
Depois de 10 anos a betumar prepotência numa marina empurrada à força contra o mar de uma das mais agradáveis enseadas naturais da ilha e após mais de 100 milhões de euros afundados pelas ondas e esmagados pelo rochedo das quebradas, o Governo Regional chega à brilhante conclusão de que é preciso dar utilidade àquele que é, provavelmente, o maior barrete de orelhas que nos foi enfiado de um rol de obras faraónicas cozinhadas nos conselhos de governo na Quinta Vigia, com interesses que não se vislumbram à tona d’água mas que acabam por produzir efeitos bem mais abrasivos do que as alforrecas.
Ficamos a saber esta semana que a marina do Lugar de Baixo será transformada num centro de recreio para a população. Nada que surpreenda de quem mantém o povo na anestesia de um longo recreio. O tal centro de recreio englobará mergulho, natação, canoagem, zonas de lazer, jogos de praia e actividades para a natureza. Enfim, tudo aquilo que ali se praticava até alguém descobrir a oportunidade da megalomania num mar de baixios aparentemente fáceis. A natureza impôs uma humilhante derrota aos projectistas no braço-de-ferro entre os paredões ultimamente fabricados com pedra roubada às margens da ribeira da Ponta do Sol. Hoje, chega-se à conclusão que aquilo já não dá para amarrar lanchas de magnatas, mas vai servir para pousar lancheiras trazidas de casa. Obviamente que para tudo haverá uma taxa, porque esta coisa de ir ao mar não é para todos.
Querem transformar num centro de recreio uma marina que tem sido um autêntico recreio governativo onde muita gente se fartou de brincar. De brincar com o dinheiro dos contribuintes. Pois bem. Mas não basta uma tímida e estratégica fuga para a frente em ano de eleições. Das duas uma: ou o governo regional, através da Vice-presidência, assume a responsabilidade pela grotesca derrapagem financeira de uma obra que não serviu os objectivos para a qual foi contratada ou atribui o ónus a quem projectou-a e executou-a sem atender aos riscos geológicos e à geodinâmica local. ‘Devolver’ às pessoas aquilo que foi objecto de interesses obscuros e um sorvedouro de dinheiros públicos durante 10 anos não apaga os erros grosseiros cometidos, não honra os compromissos do governo para com os cidadãos, nem ressarce a Região de gastos astronómicos e proibitivos na actual conjuntura económica e financeira e no contexto da realidade social da Madeira.
E se formos a ver bem, o plano de transformação da marina do Lugar de Baixo que foi anunciado pelo Governo Regional, é uma salganhada de marés: "intervenções de baixíssimo custo, que convivem com os riscos reconhecidos naquela zona", que "visam activá-la com repercussão desenvolvimentista", "que não invalidam a possibilidade de uma unidade hoteleira, antes estimulam" e que "não invalidam também uma marina no futuro, quando a conjuntura financeira o permitir". Duvido que o próprio governo saiba o que ali quer fazer, além de descerrar a placa de latão a esta coisa que bem podia chamar de Recreio de Jardinegrado.