José Agostinho Baptista Em face dos últimos despedimentos no Diário de Notícias da Madeira e em nome da cultura (esse parente pobre destes tempos financeiros, materialistas e de imposição mediática da mediocridade), gostaria de recordar o papel ímpar que o jornalista Luís Rocha, desde a literatura à música, passando pelo teatro e pelas artes plásticas, sempre desenvolveu, ao longo de muitos anos, através de um trabalho atento, criterioso e profícuo que agora, infelizmente, vemos desaparecer. Lamento que assim seja. Lamento que a corrente do saber e da sensibilidade veja serem arrastados para a ausência aqueles que sempre porfiaram por um jornalismo sério, dedicado, assumido como acto cultural. É comum dizer-se que ninguém é insubstituível. Mas nem sempre é assim. Não foi com Maria Aurora, não é com Luís Rocha, não é com outros que, na última década, foram relegados para o esquecimento, para os bastidores ou, em última análise, para o despedimento. E isto sem desprimor, menor consideração, menos apreço por quem os possa, eventualmente, substituir. No caso do DIÁRIO, quem ficou dá o seu melhor, disso não tenho dúvidas. Mas, às vezes, os nomes próprios são mais do que a mera identificação de cada um. Representam símbolos, marcas, memórias, sinais de um tempo e de um lugar, continente, país, região. É ao território da cultura que me refiro: um livro, um quadro, uma peça teatral, uma sinfonia. Alimentos para a alma, atrevo-me a chamar-lhes. À medida que tudo isso vai desaparecendo dos jornais, das revistas, das televisões, vamos ficando cada vez mais pobres, mais distraídos, mais longe da essência criativa que nos deveria acompanhar pelos dias, por mais breve e efémera que seja a nossa pulsão milenar de seres inteligentes e sensíveis. Há sempre desculpas, justificações, razões pouco sinceras que o sistema invoca para, como Pilatos, lavar as mãos. Tudo pode servir de argumento para fortalecer a retórica do deve e do haver, do prejuízo e do lucro, da sustentabilidade, etc., etc. Enfim. Um dia, sabe-se lá quando, talvez alguém se lembre do que fomos e deixámos de ser. Talvez demasiado tarde, então.