Juvenal Pereira Todas as noites Paulinho e Lininha contavam uma história para adormecer a netinha. - Era uma vez, numa terra plantada no meio do mar, onde pelo dia o Sol brilhava e as noites eram de luar. Envolta numa paisagem, linda, bela e verdejante, aquela terra era um espanto! O seu povo vivia bem. A sua vida era um encanto! Para não falar da vida fidalga que levavam os políticos, sobretudo os governantes. Mas estes sinais exteriores de riqueza são que levaram as dúvidas a muitas e sábias cabeças. Como podem aquele povo e aqueles governantes viver tão bem, se tirando o clima e a paisagem mais nada aquela terra tem? Muita gente já nisto pensava, mas ninguém falava! Até que um dia, na casa de Paulinho e Lininha, entrava, desesperada, uma vizinha, que aos gritos, dizia: “Estamos perdidos. Os nossos governantes vão ser constituídos arguidos”. O motivo era - tinha-lhe dito uma amiga - o terem escondido uma dívida! Só que Paulinho não acreditava por achar a história mal contada. E mal amanhecia o outro dia já se dirigia a casa de Maria, uma velha bruxa, à qual tudo contaria. A mulher, sorridente, puxou-o da porta para dentro e lá esteve a explicar o que se estava a passar! -Sabes, meu filho, não é no esconder a dívida que está o sarilho! Após o grande temporal que assolou a nossa linda Ilha da Macieira, chegaram uns fardos de dinheiro à costa brasileira. Esse dinheiro, após devidamente investigado, foi dado como se tivesse sido enterrado nos alicerces daquela nossa conhecida obra-prima “Marina do Lugar de Cima”. - Trata-se dum caso inverosímil, como é que o raio do dinheiro foi bater ao Brasil? - Muito natural. Levado pelas correntes marítimas, na sequência do temporal! Mas o caso não ficou por aí, muito dinheiro, pelos vistos (mal) enterrado foi encontrado aqui. Junto a centros cívicos, em túneis curtos ou compridos, em buracos em estradas, pouco antes alcatroadas, à beira de piscinas desactivadas e muito mais que se te fosse para enumerar estava aqui o dia e a noite a contar. Tudo isso mais o que foi encontrado (por ter sido mal enterrado) num tal “Museu da Lampreia” dava para fazer duas ilhas da Macieira, concluiu a bruxa Maria, no alto da sua sabedoria! - Avô, os arguidos acabaram por ser detidos? - Segundo reza a lenda, não. Só o presidente foi para a prisão. Todos os que foram interrogados disseram que ele é que tinha mandado. Coitado… É verdade. Enquanto esteve preso por ninguém foi visitado. Até que um dia, um amigo, cheio de compaixão, foi até à prisão. - Sr. guarda, eu gostava de visitar o Sr. doutor, diga-lhe que é um amigo das “cartinhas do leitor”. Em poucos segundos estava a resposta dada: Disse o Sr. Dr. que, se o senhor é das “Cartas do Leitor” que vá para o raio que o parta! Triste, cabisbaixo, com a caixa de charutos “Havana” debaixo do braço, que, com tanto carinho tinha levado, lá voltou o amigo, desanimado. Mas, caprichou, e nem um charuto por amostra lá na prisão deixou! - Marido – disse Lininha com pena – a nossa netinha Madalena já adormeceu, conta-lhe o resto da história quando acordar... Ela vai adorar!