A mais recente passagem do Rui Veloso pelo Funchal com o desfile de tantos êxitos vestidos com novas roupagens sonoras serviu de pretexto para um outro olhar sobre a história das suas músicas e das histórias que cada uma delas conta. Esse olhar não se distancia do quadro em que o caminho se foi fazendo, num país que começava a experimentar o que quase meio século de porcaria fascista e tacanha lhe havia interdito. Nascia o chamado rock nacional com a natural vertente experimental levando a sucessos e fracassos efémeros de que o inexorável tempo se encarregaria de triar. Havia outros sim, até melhores, mais genuínos, mais à frente no tempo mas, nem todos ficaram para contar e, sobretudo, fazer a história. Olhando para essa história, no caso específico, e perceber a simplicidade original do Bairro do Oriente que, agora, passados mais de trinta anos, encontra um arranjo que faz explodir as sonoridades e o clima orientais, correspondendo afinal às viagens sugeridas e antes suportadas por uma letra simples, uma guitarra acústica e pouco mais, é constatar um conjunto de pequenas coisas que poderiam e deveriam ter sucedido em tantos outros aspectos de Portugal. Não há dúvidas que o país hoje é diferente, para muito melhor, do que o deixou um regime que fazia do analfabetismo, ignorância, submissão e sujeição as linhas mestras do carácter das gentes. Pobres e agradecidos, muitos, e, altivos e generosos, uns poucos, providenciais, curadores e conscientes dos perigos da abertura a contágios que porventura levariam à perda das virtudes do povo manso. Mas, estaremos onde poderíamos e deveríamos certamente estar?. Deveremos dar-nos por felizes por, simplesmente, já não estarmos sob o jugo cinzentão e castrador dos tempos salazarentos? O triste é constatar que, infelizmente, parece ser esse o sentimento de grande parte do pensamento português. Aliviados e anestesiados, primeiro, pela abertura e acesso, depois, pela fartura e disponibilidade, segue-se o tempo actual, que afinal mostra que se é para ficar por aqui, tudo bem, já temos a nossa parte e não há que querer mais. Isto contraria o caminho do Rui Veloso (que aqui serve apenas de exemplo icónico, há, felizmente, muitos outros), que, sobre a obra, o trabalho, o mercado e o futuro, procura, e faz, todos os dias melhor, acrescentando competência, diversidade, atmosferas, cenários e tudo o que seja preciso para que os valores, a memória e as experiências se renovem, mudando e enriquecendo, revivendo e alargando horizontes. Este é um caminho que parece não ser o pretendido por aqueles que sugerem a partida para outros caminhos, que insistem e impõem uma ideia de cegueira por uma divindade tributária ao serviço de uns poucos que agora não se mostram curadores nem providenciais. A esmola, de forma perversa, é hoje pedida aos pobres, bastando o uso das tecnologias para os bombardear com a mensagem de felicitação correspondente à informação de que há ainda mais pobres que eles e que a salvação está até ao alcance de um click. Hoje pode dar-se esmola sem o incómodo de enfrentar a pobreza. É a caridade “clean”, que não fere o olhar com a miséria nem com o olhar miserável que incomoda. O gaúdio e a notícia é haver milhares de voluntários a tratar de outros milhares. Há qualquer coisa de errado nisto. Prefiro o país do Rui Veloso ao país do Banco Alimentar.

António Domingos Abreu